EDITORIAL 792

Situação “grave e complexa” no combate à Covid-19 ameaça o Serviço Nacional de Saúde e exige cuidados reforçados

• Pedro Soares

As consequências do desinvestimento que foi feito no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ao longo de anos começa agora a estar evidente pela dificuldade que está a ter na resposta ao agravamento da pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2.

Em conferência de imprensa no início desta semana, a Ministra da Saúde, Marta Temido, avança com a previsão, baseada em projeções do Instituto de Saúde Doutor Ricardo Jorge, de que no dia 4 de Novembro, próxima quarta feira, haverá mais de três mil doentes internados, 444 dos quais em unidades de cuidados intensivos., alertando que a este ritmo os hospitais do SNS vão ter de começar a encaminhar doentes para os sectores privado e social.

Segundo a Ministra, será necessário desmarcar atividade assistencial em patologias não Covid-19 e, eventualmente, vir a decretar medidas mais restritivas noutros concelhos, para além das que já estão a ser aplicadas no Vale do Sousa.

Nos hospitais da Região Centro, onde se inclui Dão-Lafões, há 131 doentes com Covid-19 internados em enfermarias e 21 nas unidades de cuidados intensivos. O quadro é preocupante, tendo em conta que o limite de camas afetas a doentes Covid-19 em enfermarias é de 206 e em unidades de cuidados intensivos é de 34.

A margem estreita-se cada vez mais e a perspetiva de progressão da infeção não pode deixar descansados nem autoridades de saúde, nem autoridades locais, nem cidadãos em geral. A par desta situação, o cancelamento de consultas e tratamentos de doentes com outras patologias torna o problema ainda mais complicado.

A pressão sobre os hospitais acontece com o crescimento de contaminações em pessoas de todas as faixas etárias, mas no grupo com mais de 85 anos, segundo Marta Temido, já “ultrapassou o máximo observado na semana de 20 a 26 de Abril, uma das semanas mais complicadas” e “dada a fragilidade dos indivíduos deste grupo etário, considera-se que esta situação pode levar a um aumento das hospitalizações e mesmo dos óbitos nas próximas semanas”. A pressão é nos hospitais e nos centros de saúde, com o aumento do tempo de espera para consultas, exames e cirurgias.

O desinvestimento no SNS serviu ao longo de anos para o surgimento de estabelecimentos de saúde no setor privado. O mesmo setor que, no início da pandemia, chegou a limitar a atividade em muitos desses hospitais, o que levou, em Setembro, a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) a alertar os privados que têm de avisar previamente os seus utentes, antes de começarem qualquer outro tipo de tratamento ou meio de diagnóstico, que não tratam doentes com Covid-19 e que estes tratamentos ou meios de diagnóstico podem ser interrompidos caso lhes seja diagnosticado o novo coronavírus.

Nesta situação de crise eminente, há que reforçar as medidas de proteção individual no espaço público, nos locais de trabalho, em todos os sítios onde haja aglomerações e pouca ventilação, como o uso de máscara, a lavagem frequente das mãos, o adequado distanciamento físico e o máximo arejamento dos locais fechados.

Porém, faria sentido que todo o sistema de saúde nacional – público, privado e social – passasse a estar durante este período sob comando do SNS, conduzindo de forma integrada todo o esforço assistencial, tanto na Covid-19 como nas restantes patologias, de acordo com exigentes objetivos de saúde pública e não da obtenção de dividendos económicos, neste momento de aflição que nos toca a todos.

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