EDITORIAL 789

HOMENAGEM à MARIA do CARMO BICA

• António Bica

Faleceu Maria do Carmo Bica nas primeiras horas do dia 18 de Agosto de 2020, em Lisboa. Foi directora deste jornal e responsável pela direcção da Associação para a Democracia, a Cidadania e o Desenvolvimento, com sede em São Pedro do Sul, editora e proprietária deste jornal, Gazeta da Beira.

Nasceu em Paços de Vilharigues, concelho de Vouzela, em 30 de Maio de 1963. Estudou nas Escolas Secundárias de Vouzela e de São Pedro do Sul. Frequentou a Escola Superior Agrária de Coimbra, tendo-se depois licenciado em Engenharia Agrícola.

Desde muito jovem foi activa militante do Partido Comunista Português, e depois do Bloco de Esquerda. Trabalhou nos Serviços Públicos Agrícolas em Tondela, depois em São Pedro do Sul e Vouzela, ultimamente na Direcção Geral de Agricultura, em Lisboa.

Era mãe de Bernardo Bica e foi casada com Pedro Soares, professor do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade Clássica de Lisboa.

Foi defensora empenhada da economia dos agricultores que vivem de pequenas explorações agrícolas nas regiões de pequena e média propriedade. Para isso dinamizou a criação e a actividade da ADRL, Associação para o Desenvolvimento Rural de Lafões, com a participação do Padre João Rodrigues, do Eng. Rui Machado, seus actuais directores, e do Eng. Rui Ladeira, Presidente da Câmara Municipal de Vouzela.

Com base na ADRL foi criada a primeira equipa de Sapadores Florestais do país, quando era Secretário de Estado da Agricultura o Eng. Vítor Barros de São Pedro do Sul.

Quando os interesses madeireiros defenderam políticas destinadas a forçar a venda a eles, sobretudo para celulose, das pequenas e médias propriedades florestais e a mato do país, que é a área dominante no Algarve e a Norte do rio Tejo periodicamente dizimada por fogos florestais, defendeu activamente que a solução para prevenir os fogos florestais é a associação dos seus proprietários para voluntariamente serem organizadas explorações florestais com pastoreio, no subcoberto do arvoredo florestal, sobretudo com cabras e ovelhas capazes de eliminar os matos e o pasto herbáceo, comendo o material combustível que alimenta os fogos florestais. Propunha a Maria do Carmo que o pastoreio fosse feito em áreas de dimensão adequada, cerca de 500 hectares, subdivididos em parcelas próximas de 50 hectares, com bebedouros permanentes, limitadas com rede de arame de cerca de 1,5 metros de altura.

Sobre a Maria do Carmo  a Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, em entrevista ao semanário  “Expresso” publicada  em 22 de agosto de 2020,  na página 24 do seu 1º Caderno,  disse que tinha acabado de perder uma grande amiga, a engenheira agrícola,  ativista , que foi também autarca e  dirigente do Bloco de Esquerda, a Maria do Carmo Bica, declarando: Marcou a minha vida pessoal e profissional. Ensinou-me muito sobre o valor do Interior, que não poderia continuar a ser visto apenas como paisagem”  

Perdemos cedo a Maria do Carmo Bica lutadora pelos direitos dos pequenos e médios agricultores, pela preservação do ambiente, pela justiça social e a igualdade entre todos os humanos, homens e mulheres. Morreu antes do tempo esta grande mulher, que por muitos anos mais devia  viver,  continuando a ser activa como sempre foi.

Se, como ela, procurarmos deixar o mundo melhor do que o encontrámos, não teremos vivido em vão, como ela não viveu.

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