EDITORIAL 781

Em tempos de COVID-19

Editorial

• Maria do Carmo Bica

O tempo que vivemos deixará marcas indeléveis na nossa memória coletiva. Esta edição da Gazeta da Beira coincide com o período da Páscoa, marcado pela COVID-19. Impõe-se refletir sobre esta efeméride. Mas há outro tema que não poderei deixar de registar: a crise económica e social que já se faz sentir e a urgência de repensarmos o nosso sistema alimentar bem como a nossa relação com a União Europeia.

Num país com forte tradição católica todos/as somos de alguma forma marcados pelas tradições associadas à Páscao. A minha Páscoa é família, são memórias de infância. Memórias de um tempo vivido numa pequena aldeia do concelho de Vouzela, onde fui criada, sempre vivi e mantenho a minha primeira habitação. Pela primeira vez fui obrigada a passar a Páscoa longe de casa, longe da família, longe das tradições que me acompanharam ao longo da vida. A culpa? A culpa é da COVID-19 que nos confina, que nos impede de viajar, que nos transporta para uma vida virtual. Nesta Páscoa pensei nos cheiros da minha infância. Cheiros marcados pelo buxo (buxus sempervirens) e pelo alecrim (rosmarinus officinalis) que as casas que pretendiam receber as Visita Pascal usavam para fazer tapetes que assinalavam as entradas. Pensei nos cheiros da cozinha onde se fazia a doçaria tradicional da época.

Saudades de um tempo de inocência que nos ajuda a ser felizes. Hoje os tempos são diferentes. Travamos uma guerra contra um inimigo invisível. Estamos em casa, confinados dentro de quatro paredes. As famílias festejam numa união virtual, à distância, mas da maior proximidade porque é tempo de amor e a solidariedade.  É uma festa de amor e de esperança no futuro, num futuro melhor para toda a humanidade.

O segundo tema que importa tratar é a crise económica e social que já se faz sentir com milhares de trabalhadores a ficarem desempregados, muitos despedimentos e muitos ainda sem direito a subsídio de desemprego. Milhares de pequenas e microempresas tiveram que fechar as portas por imposição do estado de emergência e por falta de clientes.

Uma boa parte destas empresas não tem liquidez para aguentar salários, mesmo em lay off, nem para pagar o salário do próprio gerente que, em muitos casos, chega a ser o único trabalhador da empresa.

As medidas propostas pelo Governo para as empresas (lay off, diferimento no pagamento de impostos e linhas de crédito) não resolvem os problemas das pequenas e microempresas. Para estas é apenas um adiar da crise, é como dar uma aspirina para tratar uma forte infeção

Este universo de pequenas e microempresas necessita de outro tipo de apoio, um apoio que não passe pela banca, pois se por um lado endividar é adiar a crise, por outro lado muitas delas nem sequer têm crédito na banca. A banca exige garantias que por vezes não existem.

É preciso forte investimento público para salvar a economia e a vida das pessoas, mas tem que ser pensado de forma assertiva e a responder efetivamente às necessidades das empresas e das pessoas. Ou seja, o dinheiro tem que chegar à vida real, não pode mais uma vez servir apenas para engordar o sector financeiro.

Ainda, e talvez a mais importante questão a refletir, é a situação da agricultura portuguesa, nomeadamente a pequena e média agricultura e os muito pequenos agricultores, muitos dos quais estão já fora das estatísticas do INE.

Durante este período assistimos ao encerramento de muitos mercados locais onde os agricultores iam vender os seus produtos. Ao mesmo tempo encerraram restaurantes.

Ficou assim uma cadeia cortada, agricultores com dificuldades na venda dos produtos e consumidores sem acesso a eles. Esta situação aconteceu em diversos municípios.

Entretanto nos grandes hipermercados são vendidos produtos importados.

Sabemos que a Ministra da Agricultura tomou medidas para promover os mercados locais e os circuitos curtos, que procurou sensibilizar os autarcas para a abertura destes mercados adotando medidas de contenção. Sabemos também que está a sensibilizar as grandes cadeias de comercialização de produtos agroalimentares para se abastecerem no mercado local. Isso é bom, registamos com agrado. Mas não chega para uma agricultura (constituída por pequenas e micro explorações) votada a décadas de abandono.

Precisamos de um programa com medidas articuladas que inclua apoio ao investimento para a modernização e para promover o aumento de produtividade, formação e informação para a adoção de práticas agrícolas ambientalmente sustentáveis, organização e planeamento para chegar aos mercados. A atual legislação sobre OP – Organização de Produtores, exclui todas estas explorações. Recentemente foi publicada em DR medida para retirada de produtos, mas através de OP. Mais uma vez os pequenos ficarão de fora.

Precisamos. finalmente, após este tempo de COVID-19 repensar toda nossa política de promoção do sistema produtivo com vista ao melhor equilíbrio da Balança Comercial e com vista à soberania alimentar. Não podemos mais correr riscos de dependência extrema dos outros países. Acabámos de ver nas negociações do Eurogrupo que Europa da solidariedade, da coesão territorial é uma miragem ou uma utopia cada vez mais difícil de alcançar e de acreditar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *