EDITORIAL 779

Quem constrói caminhos de sabedoria e de solidariedade não morre

Quem constrói caminhos de sabedoria e de solidariedade não morre

• Maria do Carmo Bica / Directora

Quem constrói caminhos de sabedoria e de solidariedade não morre. Este é o título que me ocorre para me referir ao recente falecimento do nosso querido amigo Engenheiro Armínio Ângelo de Lemos Quintela. Um homem bom e bem conhecido por todos nós, pela sua obra, mas sobretudo pelos valores que orientaram a sua vida e conseguiu transmitir aos seus concidadãos e aos seus descendentes. Ao seu lado, nesta caminhada, a sua mulher, Maria Manuela Aguiar da Câmara Correia e Silva de Lemos Quintela, sempre com um sorriso carinhoso, transmitia confiança e cumplicidade.

O “Engenheiro Quintela”, como era referido entre os e as lafonenses, desempenhou cargos profissionais e políticos de relevância nacional. Recordo que foi o último Governador Civil anterior ao 25 de Abril de 1974. Nessa altura, época de ditadura, em que a polícia política (PIDE) vigiava todos os movimentos de quem se opusesse ao Governo, o Engenheiro Quintela sempre cuidou de evitar injustiças com os seus concidadãos.

Outro facto revelador do seu sentido de justiça foi o modo equilibrado de conduzir a gestão dos Baldios, numa altura em que, em várias regiões, os Serviços Florestais criaram um clima de conflitualidade com os povos, durante o processo de florestação, que atirou com os pastores para a emigração. Com efeito, nestas serras de Lafões, não há memória de conflitos com o Engenheiro Quintela, persistindo, antes, a ideia de um bom gestor florestal, empenhado na causa pública e no bem-estar das populações locais.

Deixa o seu legado de sabedoria e solidariedade aos seus filhos. Permito-me deixar aqui um abraço especial ao Paulo Jorge da Câmara Correia de Lemos Quintela, meu Paulo Quintela que, sendo da minha idade, foi com quem mais convivi e partilhei o gosto pela intervenção cívica, em prol do desenvolvimento integrado e sustentável da região de Lafões, obviando, sadiamente, a separatismos municipalistas. O Paulo herdou do seu pai o gosto pela floresta e pelo arvoredo em geral. Tem-se batido contra as podas municipais, pela defesa do património e da cultura da região. Sempre atento e sempre solidário.

Trabalhei alguns anos no edifício dos Serviços Florestais em São Pedro do Sul. Durante esse período, raro era o dia em que não tivesse o prazer de conversar com o Engenheiro Quintela sobre a actualidade política, local e nacional. Por vezes, trazia-me recortes de jornais de outras épocas e comparávamos com a actualidade. Foi um privilégio conviver tão de perto com ele, mas foi no seio da minha família que eu aprendi, desde tenra idade, a respeitá-lo. Há amizades que se herdam, porque são genuínas, assentes em valores de respeito mútuo, de partilha de visão pelo desenvolvimento da região e de respeito pelas causas públicas.

Um leitor assíduo da Gazeta da Beira, mais uma razão para aqui deixar um abraço a toda a família e os meus sentidos pêsames por esta partida.

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