EDITORIAL 778

Eutanásia e o direito à vida

Na semana passada a Assembleia da República discutiu e aprovou 5 projectos de Lei para a despenalização e regulamentação da eutanásia.

O debate sobre esta matéria foi muito extremado e nalguns casos com argumentação demagógica e dogmática.

A Igreja Católica envolveu-se na luta contra a aprovação destes projectos com o principal argumento de que só Deus é dono da nossa vida. Foram muitos os padres que na homília da missa do domingo anterior, dedicaram boa parte da sua intervenção a tentar convencer os seus fiéis de que a eutanásia é contra as leis de Deus.

Apesar desta campanha, alguns dos fiéis, em entrevistas às televisões, à saída da missa, declaram “bom, em casos extremos deve ser permitida”.

Pois é de casos extremos que estamos a falar. É da vontade própria de pessoas para quem, em caso de doença terminal e irreversível, o sofrimento físico ou psicológico se torna insuportável.

Não pode haver dogmas nem leis que obriguem um ser humano a viver uma vida em sofrimento insuportável e incurável.

Ninguém pode ser obrigado a viver contra a sua vontade da mesma maneira que ninguém pode tirar a vida a outra contra a sua vontade.

O facto da eutanásia poder vir a ser aprovada em definitivo em Portugal, não significa que alguém seja obrigado a praticá-la. Antes pelo contrário, quem optar por pôr fim à vida porque a vida já não é vida, só o poderá pedir se for maior de idade e estiver na posse das suas faculdades psicológicas, sendo necessário passar pelo parecer de uma comissão de médicos.

Ajudar a morrer é um acto de amor. Quando vemos a vida de um familiar ou de uma pessoa amiga de quem gostamos muito a tornar-se insuportável pelo sofrimento causado por doença incurável, olhamos para a morte como “tinha de ser, já não aguentava mais”. Nestes casos ajudar a morrer, se for essa a vontade do próprio, é um acto de amor.

Esta tarde conversei com uma pessoa da minha família que acompanhou um doente com esclerose lateral amiotrófica até à morte. Dois anos após a sentença de morte dada pelo médico que fez o diagnóstico, seguiram-se dois meses na cama à espera do dia em que os pulmões finalmente iriam deixar de respirar pela atrofia muscular.

Perguntei qual a sua opinião sobre a eutanásia. Resposta imediata: “quando chegar a minha vez não vos vou pedir para morrer, mas não me deixem sofrer, e acho bem que a eutanásia tenha sido aprovada. O que aprovaram não foi a obrigação de a praticar, mas sim o direito de cada um decidir da sua vida conscientemente”.

Quando a vida se torna um inferno, procurar viver com dignidade é um direito, mas querer morrer com dignidade é também um direito.

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