EDITORIAL 774
Memórias de Natal

Escrevo ao som do crepitar da lareira que me aquece nesta noite de tempestade entre a Elsa e o Fabien. Traz-me à memória os Natais da minha infância.
Lá fora marcas bem visíveis do vento e da chuva intensa. As terras da Lameira estão cobertas de água. Foram assim muitos Natais da minha infância, mas nessa altura não tinham nome as tempestades. Eram tempestades. A nossa aldeia fica na base na serra. Era assim o ordenamento do território nos tempos em que se valorizava a agricultura. As terras haviam de ficar livres para nelas cultivar os cereais, as hortícolas, as fruteiras, a vinha, o olival e o pasto para os animais. Cada família, cada aldeia tinha de tratar da sua autossuficiência, por isso todos cultivavam um pouco de tudo o que ali se dava. Era assim, eram as tradicionais explorações policulturais, guardiãs de biodiversidade.
As casas não podiam, por isso, ocupar terra de cultivo e deviam também ficar o mais próximo possível da serra de onde vinham os matos para os currais e a lenha para cozinhar e aquecer a casa. A aldeia desenvolveu-se entre a serra e as terras agrícolas.
Em noites de tempestade as terras enchiam-se de água e a minha mãe manifestava o medo do Cabeço do Crasto (um dos lugares mais emblemáticos da serra de Paços) ruir por cima das casas, com a intensidade da chuva e do vento.
O Cabeço do Crasto continua lá, na serra, a esconder o que resta de um antigo castro que ali existiu. As terras da Lameira continuam a alagar-se, mas há menos crianças na aldeia para festejar o Natal.
Quem, no nosso imaginário, trazia as prendas era o Menino Jesus, não havia Pai Natal. Entre a hora do jantar e a meia noite, enquanto aguardávamos a visita do Menino Jesus jogávamos à piorra com pinhões. Tira, põe, rapa e deixa. Fazíamos rodar a piorra e, em função da face que ficava virada para cima, deixávamos os pinhões todos na mesa, se calhasse a face com o D, tirávamos todos, se fosse o R, tirávamos um, no caso de ser o T, ou colocávamos um pinhão se a sorte desse um P.
Quem chegasse ao final do jogo com maior número de pinhões ganhava o jogo. Os pinhões eram comprados, como mandava a tradição na Feira dos Pinhões, em São Pedro do Sul.
Uns dias antes do Natal fazia fios de pinhões que enfiava numa linha para colocar na árvore de Natal. Cada pinhão havia de corresponder a um sacrifício que oferecíamos ao Menino Jesus.
No dia de Natal comíamos os pinhões dos fios.
O Menino Jesus deu lugar ao Pai Natal, as piorras aos jogos de computados, às playstations e aos telemóveis. As couves do Natal já não se vão apanhar ao campo, são compradas no mercado, os pinhões no supermercado mais próximo, que substituíram as velhas mercearias.
Pelas televisões entram notícias de refugiados e migrantes que fogem da guerra e da pobreza, uns morrem na travessia do Mediterrâneo outros enfrentam maus tratos numa Europa cada vez menos social e solidária e mais competitiva e financeira. É o capitalismo desenfreado a aumentar as desigualdades, a miséria e a sobrexploração de recursos naturais. São as alterações climáticas a colocarem em risco a vida no planeta tal como a conhecemos.
Mas eu continuo a gostar do Natal, porque é em família, com lareira, com os doces tradicionais feitos por nós, com o convívio, na aldeia onde fui criada. Será uma forma de resistência à globalização e a este capitalismo que tudo transforma em mercadoria e consumo desenfreado? É uma oportunidade para juntar a família, um pouco de felicidade no meio de tanto desastre, e somos muitos e muitas!
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