EDITORIAL 770
A soberania alimentar é cada vez mais uma emergência como contraponto ao sistema global imposto pelo capitalismo
Sistemas alimentares territoriais em debate
A soberania alimentar é cada vez mais uma emergência como contraponto ao sistema global imposto pelo capitalismo

A decorreu no INIAV, em Oeiras, no passado dia 21 de outubro, um workshop sobre Dinamização de Circuitos Curtos Agroalimentares e Estratégias Alimentares Locais. A organização deste evento foi da responsabilidade da Direcção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural/ Rede Rural Nacional e da Federação Minha Terra.
A procura de alimentos saudáveis, sazonais, produzidos na proximidade, em sistemas agrários sustentáveis, está a aumentar cada vez mais. Os Circuitos Curtos de Produtos Agroalimentares (CCA) surgem neste contexto, como resposta a este tipo de procura. Os CCA assumem diversos formatos mas todos têm um objetivo comum que é a ligação directa entre produtores e consumidores.
Esta ideia enquadra-se também na construção de níveis aceitáveis de soberania alimentar assentes em sistemas alimentares sustentáveis. Trata-se de um processo já bastante desenvolvido noutros países, nomeadamente na França. Em Portugal diversos municípios e regiões estão a fazer este caminho.
No workshop de Oeiras podemos assistir à apresentação de algumas boas práticas que podem ser replicadas para outros territórios. São disso exemplo o Município de Mértola onde se estabeleceu uma rede de estratégias envolvendo várias pessoas e entidades com base na agricultura sintrópica e na organização do sistema alimentar local; os Município de Torres Vedras e do Fundão onde as respectivas CM desenvolvem projetos inovadores ao nível da alimentação escolar assentes na agricultura de proximidade e privilegiando a agricultura biológica. A estes exemplos portugueses juntou-se uma boa prática vinda da Andaluzia, de uma aldeia que se chama Cabra, perto de Cordova. Esta iniciativa, apresentada por António Zafra, a Subbética Ecológica junta, em rede, 48 produtores e 488 consumidores (430 famílias e 58 centrais de pedido que correspondem basicamente a cantinas públicas). Toda a produção assenta em modos de produção sustentáveis. Na sua intervenção, António Zafra, referiu a existência de novas formas de organização de produtores e sua ligação aos consumidores que estão a surgir em grandes cidades, tais como Paris, que são as Cooperativas Sociais Consumo. Segundo o representante da Subbética Ecológica, este modelo cooperativo pode ser muito interessante para os pequenos produtores.
Teresa Pinto Correia, Professora na Universidade de Évora, fez o enquadramento teórico do conceito de CCA com base no trabalho desenvolvido no âmbito do projeto SALSA. Ou seja, numa abordagem de sistema e territorial. As quatro dimensões do sistema são a produção, a transformação, a distribuição e o consumo.
Na segunda parte do programa, após intervenção de António Carlos Duarte, Coordenador do Geoparque de Arouca, seguiu-se interessante Mesa Redonda moderada por Isabel Rodrigo, Professora no Instituto Superior de Agronomia e especialista nestas matérias.
Nesta Mesa Redonda que gerou um interessante debate sobre a pequena agricultura familiar, agricultura biológica, agricultura regenerativa e a organização da produção, participaram, além dos representantes dos projetos anteriormente referidos (Antonio Zafra da Subbética Ecológica, Artur Gregório da Associação In LOCO, Laura Rodrigues do Município de Torres Vedras
António Carlos Duarte pelo Município de Arouca, Natália Henriques do PROVE, Paulo Águas do Município do Fundão e Rosinda Pimenta do Município de Mértola)
O debate centrou-se ainda sobre hábitos de consumo, sistemas de produção, organização da produção, intervenção pela educação, sazonalidade da produção, diversificação da produção tudo isto numa lógica de criação de riqueza e de fixação de pessoas nos territórios.
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