EDITORIAL 767

Os velhos regadios tradicionais podem ser fonte de atração turística

Por motivos profissionais visitei recentemente a Levada do Norte, na Madeira. O objectivo da visita era perceber o impacto dos regadios no desenvolvimento dos territórios.

Regressei com a forte convicção que aquilo que começou por ser um complexo sistema de rega e de produção de energia, se transformou num recurso turístico que ocupa uma enorme centralidade na economia madeirense.

Actualmente, a principal fonte de riqueza é o turismo, ou seja, todas as actividades económicas que estão directa ou indirectamente relacionadas com o turismo.

O clima ameno ao longo de todo o ano e a grandiosidade da paisagem são, a meu ver, os principais factores de atração turística. Uma paisagem marcada por uma enorme montanha que atravessa e separa os dois lados da ilha, o Norte dos Sul. Do lado Norte uma floresta frondosa, a floresta Laurissilva, reconhecida como Património Mundial da Humanidade, com abundância de água e do lado, no Sul uma paisagem marcada por montanha cheia de escarpas e ravinas, algumas de suster a respiração e pela falta de água.

Dos dois lados da ilha, nas encostas da montanha, o homem foi roubando terra à montanha, escavando palmo a palmo, construindo muros nas escarpas para segurar a terra. São socalcos que os madeirenses denominam por poios.

Foi também ao longo destas escarpas que foram construindo complexos sistemas de regadio, as levadas, para trazer e distribuir a água do lado Norte para o Sul da ilha.

A paisagem da Madeira tem hoje uma forte marca antrópica que se observa justamente nos inúmeros poios que circundam as encostas da montanha e pelas levadas (condutas da água para rega e produção de energia elétrica e agora também para abastecimento de água às populações).

Eu diria que esta marca humana na paisagem madeirense é hoje absolutamente central na actividade turística, pois os turistas que vão à Madeira vão justamente à procura de paisagem e de actividades lúdicas e desportivas nas montanhas.

Os trilhos das levadas ganharam relevância tal que as autoridades da Madeira estão a tratar do processo para o reconhecimento do sistema de levadas da Madeira como Património Mundial da Humanidade.

Quero com isto dizer que, em Lafões existem inúmeros regadios tradicionais, espalhados por quase todas as aldeias que podem constituir recurso semelhante para o turismo na região.

Para isso será necessário fazer um levantamento de todos os regadios tradicionais existentes, georreferenciar e caracterizar o seu percurso, posteriormente limpar e recuperar os que estiverem danificados, assinalar e divulgar os respectivos trilhos.

Será necessário articular este trabalho com os agricultores de cada lugar, dado que se trata de sistemas de rega privados, colectivos, mas privados. Estes regadios, ou seja, estas levadas continentais, são geridas em comum pelos agricultores que beneficiam das suas águas, o que constitui na generalidade dos casos um direito consuetudinário.

Muitas destas levadas foram sendo abandonadas ao ritmo do abandono da pequena agricultura familiar. Há que lhe dar nova vida, há que complementar o uso para rega com o uso para trilhos pedestres, só assim conseguiremos recuperar e conferir sustentabilidade a estes sistemas de rega que são ancestrais. Na memória dos mais velhos ainda vivem muitas histórias sobre antigas práticas de gestão dos regadios e até de conflitos à volta da água. Um bom plano intermunicipal de recuperação e valorização destes sistemas de rega pode constituir um projecto que a todos beneficiaria, a natureza e o ambiente, os agricultores e a atividade turística sustentável a região no seu todo.

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