EDITORIAL 743

Verão atípico mostra aumento de riscos climáticos

Este ano o verão chegou tarde e com características completamente atípicas. Temperaturas elevadas com chuva e trovoada à mistura. Por momentos somos levados a pensar que estamos num clima tropical.

Segundo os estudos conhecidos sobre as alterações climáticas, fenómenos deste tipo tenderão a repetir-se e mesmo a agravar.

O problema é que a nossa agricultura não está adaptada a este tipo de condições climáticas e não temos um sistema de seguros que assegure a justa e necessária proteção dos agricultores.

O sistema de seguros de Portugal é privado e os agricultores ficam á mercê do mercado que se organiza para defender os interesses do negócio das seguradoras.

A título de exemplo, para os mirtilos, os preços praticados são tão elevados que se torna absolutamente incomportável fazer aderir a um seguro.

Este ano os produtores de mirtilos, face a esta situação, estão a confrontar-se com problemas complicados que estão a causar enormes prejuízos.

Por um lado a chegada tardia o tempo quente impediu a normal maturação escalonada do fruto. Ou seja, a seguir a um longo período de frio e chuva vem repentinamente um forte aumento de temperaturas e tempo seco que conduz a um amadurecimento de quase todos os frutos ao mesmo tempo, portanto a uma enorme concentração da oferta, o que dificulta a comercialização.

Logo a seguir vem novamente um período de chuvas o que impede a colheita. O resultado foi enorme quantidade de frutos a amadurecer demais no arbusto e algumas podridões a atacar os frutos. A par disto, obviamente que o sabor fica atrás do normal por deficiente concentração de açúcares.

A falta de organização dos produtores deixou-os completamente nas mãos dos intermediários.

Este ano terá que ser de balanço e de aprendizagem. Na minha opinião, sem uma organização forte de produtores que permita eliminar ou disciplinar os intermediários será muito difícil que o sector resista e se desenvolva como é necessário.

Mas a par do reforço da organização dos produtores é necessário pensar num sistema público de seguros que garanta a necessária proteção aos agricultores, por exemplo à semelhança do que existe na Espanha. Sem isso será muito difícil compensar aa perdas de rendimento que estão a agravar-se por causa das alterações climáticas.

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