EDITORIAL 740

Marx e a desconstrução de ideias feitas

Comemorou-se há dias, a 5 de Maio, a passagem do 200º aniversário do nascimento de Karl Marx. Numa altura de agravamento da crise climática e de aumento das desigualdades a nível global, a análise da sociedade que Marx nos apresenta traz-nos evidências sem data nem dogma. Aliás, frequentemente acusado de determinista, Marx foi afinal um dos maiores desconstrutores de ideias feitas e aparentemente imutáveis que marcavam o seu Século XIX.

Grande entusiasta da teoria evolucionista de Darwin, Marx rejubilou com o surgimento da obra “A Origem das Espécies”, em 1859, que colocava em causa os dogmas criacionistas e a todos propunha uma nova forma de encarar a natureza e o próprio ser humano. Tratava-se de uma verdadeira revolução na biologia. Marx estava nessa onda e procurava, também ele, uma teoria para a revolução nas ciências sociais.

Precisamente nessa área, das ciências sociais, a modernidade da época discutia o papel do trabalho e a sua importância nos tempos da Revolução Industrial. Como é que o trabalho produz valor, enriquece uns e empobrece outros? Marx dedicou-se a procurar encontrar uma resposta para essa questão, que acabou por ser o fio condutor da sua obra mais conhecida e essencial, “O Capital”.

“A palha, o farelo e o pão de um acre de trigo valem mais do que o produto de um acre de uma terra igualmente boa, mas abandonada, sendo o valor daquele o efeito do trabalho”, constatava John Locke, um dos fundadores do liberalismo no Século XVII, que se questionava sobre como o trabalho tinha esse condão de criar valor.

Bem mais tarde, já com a Revolução Industrial em marcha, o economista Adam Smith, o mais importante percussor do liberalismo económico, esclarece que o trabalho não só aumenta o valor, como é a origem de “todas as riquezas do mundo” e a sua medida.

A coisa começava a deslindar-se. Mas é Marx, já na segunda metade do Século XIX e em plena industrialização, que demonstra que é o trabalho, o trabalho individual e o trabalho social – a soma global do trabalho incorporado na transformação da matéria prima até ser mercadoria, que está na origem da acumulação do capital e que explica a estrutura fundamental da sociedade capitalista moderna.

“Qual é a substância social comum a todas as mercadorias? É o trabalho. Para produzir uma mercadoria, tem-se que investir nela, ou nela incorporar uma determinada quantidade de trabalho. E não simplesmente trabalho, mas trabalho social.”

E é a partir daí que Marx passa para a etapa seguinte. De que modo é que uma parte desse valor, produzido a partir do trabalho, se transforma em lucro da empresa onde foi elaborada a tal mercadoria? A resposta parece agora ser óbvia, mas nunca antes tinha sido formulada. Há uma parte do valor gerado pelo trabalho que não é paga sob a forma de salário. É essa parte produzida pelo trabalho, mas não paga, a que Marx chamou “mais-valia”, que fica retida e se transforma em lucro da empresa. Esta é a base da acumulação de capital, da sua reprodução e, novamente, mais acumulação. Só por si, o capital nada gera sem a intervenção do trabalho, seja ele mais físico ou mais intelectual, mais ou menos qualificado.

Tinha caído mais um dogma. Como alguns já suspeitavam, afinal o “deus dinheiro”, o capital, não era a origem de toda a riqueza. Marx elucidou o porquê e deu sentido científico à palavra exploração que milhões sentiam na carne, mesmo não a sabendo explicar. Obrigado, Karl Marx!

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