EDITORIAL 728

As responsabilidades políticas nos efeitos da seca

Os problemas resultantes da situação de seca que se vive em Portugal têm-se vindo a agravar a cada dia que passa.

As primeiras reações vieram dos criadores de gado e dos agricultores. Começaram no Alentejo mas rapidamente se estenderam a Trás-Os-Montes e um pouco a todas as regiões do país.

Começaram a temer-se graves prejuízos nas culturas agrícolas de forma muito generalizada.

Mais recentemente vieram as notícias da falta de água para abastecimento das populações em vários concelhos e de forma particularmente grave no distrito de Viseu.

O mês de Setembro em Portugal continental foi o mais quente dos últimos 87 anos, em comparação com todos os meses de Setembro desse período, classificando-se como extremamente seco, de acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Todas as informações que têm sido divulgadas apontam para a repetição de fenómenos deste tipo com maior regularidade, sendo resultado das alterações climáticas.

Chegados aqui, além das medidas pontuais de socorro das populações atingidas bem como dos animais e culturas agrícolas, é urgente pensar nas causas estruturais que contribuíram para acentuar os efeitos da seca e em medidas de médio e longo prazo que permitam, no futuro evitar situações de privação de água para consumo humano, animal e plantas mas também para as actividades industriais que dependem de água.

Não sendo especialista nestas matérias mas conhecendo relativamente bem todo o território nacional sou levada a pensar que muitas das situações de falta de água resultam de opções erradas ao nível do planeamento do abastecimento de água e do ordenamento do território. Admito também que temos uma cultura de pouca poupança de água, sobretudo nas regiões acima do Tejo.

Não se compreende por exemplo a falta de água no distrito de Viseu. A região de Viseu é rica em quantidade e qualidade da água. Aliás, sempre pensei que, quando em Viseu sentíssemos a falta da água, muita gente estaria a morrer de cede. Justamente porque na generalidade do distrito de Viseu a água é de excelente qualidade e existe em quantidade apreciável. Estou convencida que o que se passa no distrito de Viseu que já levou alguns municípios, nomeadamente Nelas, Mangualde, Viseu e Penalva a declarar estado de emergência é resultado de mau planeamento no abastecimento de água às populações associado a deficiente manutenção dos sistemas, nomeadamente das albufeiras. Há pois que apurar as responsabilidades políticas das verdadeiras causas da falta de água no distrito de Viseu.

Para o futuro, além da elaboração e execução de uma programa de sensibilização das populações para práticas de consumo sustentável de água, há que pensar em adequar as infraestruturas de captação, armazenamento e distribuição de água às populações de forma evitar situações de privação de água em anos como este.

Também ao nível da agricultura e da pecuária é necessário criar um sistema público de inovação e aconselhamento, nomeadamente um sistema de extensão agroflorestal que em todas as regiões, em formatos adequados a cada região e ao uso das novas tecnologias, contribua para a implementação de práticas agrícolas sustentáveis também do ponto de vista dos consumos de água. O país não pode descurar a produção agrícola como muitos ambientalistas urbanos parecem defender, porque os alimentos não nascem nas prateleiras dos supermercados, os alimentos que compramos nas grandes cidades são resultado da produção agrícola e precisamos assegurar níveis aceitáveis de soberania alimentar. Além disso a agricultura é uma económica geradora de riqueza e de emprego.

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