EDITORIAL 726

Lafões está de luto

Lafões está de luto

• Maria do Carmo Bica

Na edição anterior da Gazeta da Beira publiquei um editorial que apontava uma nova esperança para a floresta. Pensei eu que a divulgação de relatório produzido pela Comissão Técnica Independente nomeada pela Assembleia da República na sequência dos grandes fogos florestais de Pedrógão Grande e de Góis, dos quais resultaram um elevado número de vítimas mortais e avultados prejuízos materiais e ambientais, seria o ponto de partida para um caminho que nos levasse às melhores soluções para a problemática florestal. O Secretário de Estado das Florestas anunciara, no Congresso Florestal Nacional, esse mesmo compromisso, que nada mais iria ficar na mesma depois deste relatório. Uma onda de esperança se abriu perante a ideia que o debate estava novamente aberto e que o Governo se comprometia a atender aos resultados deste debate.

Não esperava eu que passados 15 dias estaria a voltar a este tema depois de uma nova vaga de fogos florestais, fora de época, como se os fogos conhecessem épocas ou fronteiras, que provocou a morte de mais de 40 pessoas, de inúmeros animais, destrui casas, vinhas, hortas, fruteiras e uma vasta área florestal. Desta vez à nossa porta.

Passos 15 dias volto a escrever e desta vez com a esperança reduzida aos sonhos, porque os projectos parecem vazios e pouco inovadores.

A única esperança está na minha tia Otília e noutras pessoas como ela, muito poucas, que com os seus 80 anos consegue projectar a vida além da vida. Pegou num sacho, num saco de castanhas, nozes e bolotas e foi serra acima reconstruir a floresta, que a urgência é muita. Mas antes pegou em igual saco e sacho e foi oferecer ao irmão António “ tens aqui, sementes e sacho, vai serra acima começar tudo de novo”.  É esta inteligência e imenso humanismo e sabedoria que só a alguns e algumas pertence que me faz renovar a esperança. Sim, que nas elites pouca ou nenhuma esperança deposito.

O relatório dos peritos da Comissão Técnica Independente aponta para erros que todos nós, senso comum, já conhecíamos, bastava-nos para isso um olhar atento sobre a realidade.

Três níveis de problemáticas, estreitamente interligadas, são apontadas pelos peritos como causa da tragédia.

1 – Conhecimento. Aqui é reconhecido que o conhecimento existe, técnico e científico. Mas é também reconhecido “o desprezo que se tem atribuído, com frequência, ao conhecimento acumulado (…) O domínio da gestão da floresta em Portugal foi frequentemente afectado, nos últimos anos, por intervenções que fizeram tábua rasa do conhecimento acumulado”.

2 – Qualificação. Reconhece a ausência de formação e capacitação profissionais adequadas para muitos dos intervenientes na floresta e ainda o não aproveitamento de pessoas que, apesar de bem preparadas não são chamadas a intervir.

3 – Governança. Uma instabilidade no modelo de governança da floresta é apontada como uma das problemáticas. A autoridade florestal nacional mudou 6 vezes de figurino institucional nos últimos 20 anos.

Inúmera são as falhas apontadas no relatório. Delas já muito se falou e escreveu. Destacaria as causas devidas a mediadas de prevenção estrutural:

No período de 2012 a 2017 apenas 19% das áreas de faixas de gestão de combustível incluídas nos Planos Municipais Contra Incêndios dos 11 municípios afectados foram executadas.  Falta de limpeza das faixas de protecção dos aglomerados populacionais e junto á rede viária.

A gestão activa de áreas arborizadas e de matos verificou-se apenas em 9,6% da área total de floresta e matos.

Chagados aqui, esperava eu ouvir na intervenção do Primeiro Ministro António Costa palavras a anunciar que as causas estruturais dos fogos florestais passariam a ser uma prioridade. Pois sobre isso nem uma palavra. Apenas se limitou a anunciar um conjunto de medidas, que embora importantes e muitas delas há muito reclamadas pelas organizações de produtores, apresentadas desta forma parecem claramente insuficientes e mais do mesmo.

Lendo o Plano o Plano de Revitalização do Pinhal Interior que deveria ser uma oportunidade para inovar no planeamento, ordenamento e gestão da floresta e dos territórios rurais, verificamos com tristeza de estratégico não tem nada e de inovação muito menos.

Por isso o meu desânimo e falta de esperança nas elites que nos governam. Renovo a esperança no povo que lutou sozinho, auto-organizado contra as chamas do último fim de semana em Lafões. Em dezenas de aldeias que ficaram isoladas pelo fogo como ilhas pelo mar, as pessoas lutaram e venceram. Estão agora determinada a continuar a luta pela reconstrução e gestão da terra que é sua.

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