EDITORIAL 721

A falência de um modelo de desenvolvimento económico

A questão florestal continua no centro do debate. No momento em que escrevo este texto decorre na Assembleia da República o processo legislativo que culminará com a aprovação d mais um conjunto de projectos e propostas de lei a acrescentar à floresta legislativa que existe no nosso país sobre o sector florestal.

Há dias, uma pessoa amiga com grande experiência e sensibilidade para estas matérias dizia-me, a propósito do último grande incêndio que ficará na nossa memória principalmente pelo elevado número de vítimas que causou: – andamos a discutir a influência do borboto das meias num acidente mortal de mota. Pois, eu concordo, andamos todos muito entretidos com o borboto das meias. Não vamos ao essencial. Alguns, muitos, é distração ou ignorância mas outros é por interesse. Enquanto discutimos o “borboto das meias” vai-se abrindo espaço para mais negócios na floresta. O negócio do fogo controlado, o negócio da certificação florestal e ser imposto por lei, negócio para consultores e advogados à volta do “cadastro simplificado” e negócio para fundos financeiros.

Ou seja, enquanto discutimos o “borboto das meias” outros tratam-nos da vida e acrescentam ao negócio do combate o negócio da prevenção. Fica de fora uma verdadeira política para o ordenamento e gestão florestal que se impõem num território do interior, despovoado mas com dono conhecido.

Deixando o “borboto das meias” e nele inclui a exacerbação do efeito do eucalipto, o problema central que importa discutir é o modelo de desenvolvimento económico subjacente a toda esta problemática. Trata-se a meu ver, da falência de um modelo de desenvolvimento económico que vem desinvestindo no interior desde há muitas décadas.

Várias opiniões apontaram como problema central o despovoamento dos territórios do interior. A falta de pessoas é como a principal razão para o declínio. Contudo, a falta de pessoas é causa e consequência, ou seja, a falta de dinâmica económica e de serviços públicos provoca a saída das pessoas mas a falta de pessoas leva ao encerramento de serviços públicos e à perda de dinâmica económica.

Este modelo de desenvolvimento económico de desinvestimento no interior, em falência total, ao mesmo tempo que olhava para a saída das pessoas da agricultura como um indicador de desenvolvimento, não se preocupou em encontrar alternativas de trabalho noutros sectores, indústria ou serviços, que permitisse a permanência das pessoas nos seus territórios de origem.

Este problema do despovoamento do interior começou na década de sessenta e tem vindo a agravar-se. O abandono da agricultura de subsistência levou também ao abandono da floresta. Ou seja, a economia da floresta, nestes territórios estava ligada à economia das explorações agrícolas. Na medida em que a floresta se autonomiza, por desaparecimento da agricultura, perde viabilidade económica e dá origem ao abandono. A questão florestal, é hoje uma questão central nos territórios do interior rural e não pode ser desligada de novo modelo de desenvolvimento económico a encontrar para estes territórios.

O que interessa pois discutir é uma nova política pública para o desenvolvimento dos territórios do interior assente numa nova economia que inclua a economia da floresta, respeitando a posse, mas separando e organizando o uso de modo a ganhar escala de planeamento de competitividade no mercado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.