EDITORIAL 720

A tragédia, a floresta e a cidadania organizada

No momento em que escrevo este texto o incêndio que deflagrou no sábado passado em Pedrógão Grande ainda não está controlado, há 157 pessoas feridas e 64 morreram. Os prejuízos materiais e ambientais estão por calcular e duvido que sejam quantificáveis com algum rigor. Uma tragédia que irá ficar na memória das famílias das vítimas, nos sobreviventes e em toda a população, mesmo nas pessoas que assistiram através da comunicação social.

Esta tragédia irá também deixar marcas profundas na paisagem e no ambiente de toda a zona ardida.

É a hora da solidariedade, de observar e de pensar, não é hora de crítica precipitada, escrevi na minha página do facebook.  Incomoda-me assistir a comentários oportunistas sobre esta tragédia.

Resolvi escrever sobre ela apenas para apontar caminhos de futuro.

No meio de toda esta tragédia há uma notícia que importa destacar: o fogo não teve origem criminosa, teve origem em relâmpagos resultantes de “trovoadas secas”.

Alguns especialistas em alterações climáticas afirmam, relativamente à ocorrência de “trovoadas secas”, que se trata de um fenómeno que, a confirmar-se alguns cenários previstos por causa das alterações climáticas, poderá repetir-se com mais frequência. Teremos que aprender a conviver com este fenómeno associado a um aumento de temperatura.

Estes factos deverão obrigar-nos a reflectir sobre o essencial numa perspectiva de futuro.

Nesse sentido gostaria de transcrever um parágrafo de um artigo de Jorge Paiva, Botânico, Professor e Investigador da Universidade de Coimbra publicado em 23/01/2006 no Jornal “O Público”.

«Após a criação dos “Serviços Florestais”, foram artificialmente rearborizadas com pinheiro-bravo, tendo-se criado a maior mancha contínua de pinhal na Europa. A partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas.»

A leitura deste parágrafo é fundamental para perceber o problema que temos em quase todo o interior do país a norte do rio Tejo. Duas culturas introduzidas artificialmente, em muitos casos em mancha contínua e ambas altamente inflamáveis. A juntar-se a este facto o despovoamento e os fracos rendimentos dos produtores do minifúndio levaram ao abandono de enormes áreas.

 

Nesse mesmo artigo, acrescenta Jorge Paiva que «Muitas vezes, essas mesmas áreas são também invadidas por acácias ou mimosas, bastando para tal que exista um acacial nas proximidades ou nas bermas das rodovias, pois as sementes das acácias são resistentes aos fogos e o vento ajuda a dispersá-las por serem muito leves.»

Este é o retrato de grande parte do território nacional. Manchas contínuas de pinheiro e de eucalipto, floresta desordenada e abandonada e ainda as acácias.

Atravessei o país a pé, desde Rio de Onor até Vila Real de Santo António, justamente pelo interior, procurando nas Cartas Militares, o melhor caminho para os pés, o mais possível fugindo ao alcatrão, que o alcatrão só é bom para os carros. Neste percurso pude observar, a cada passo, o estado de abandono e de desordenamento destes territórios. Justamente no “interior centro” o pensamento que mais me bailava na cabeça era o de que “só por milagre isto ainda não ardeu tudo…, só por milagre”.

Entretanto é momento para recordar que a acção colectiva da cidadania organizada pode ser alternativa às políticas e aos interesses capitalista que por todo o lado destroem vidas e o ambiente. Nada melhor do que falar de um filme que na França foi visto por mais de um milhão e em Portugal encheu salas de cinemas e continua a ser visto e a motivar bons debates. Chama-se “Amanhã” e foi realizado por Mélanie Laurent e Cyril Dion.

Neste documentário, os seus autores começam por mostra que o planeta está em crise, em profunda crise económica, social e ambiental e que se nada for feito podemos assistir ao desaparecimento da humanidade até 2100. Mas este filme é essencialmente uma mensagem positiva, mostra o que em cada bairro, em cada aldeia, em cada cidade ou região as pessoas auto-organizadas podem fazer para encontrar alternativas.

Cyril Dion e Mélanie Laurent partiram com uma equipa de quatro pessoas, para investigar em dez países aquilo que poderá provocar uma catástrofe e, sobretudo, como evitá-la. Durante a sua viagem, encontraram pioneiros que reinventaram a agricultura, a energia, e economia, a democracia e a educação. Ao juntarem todas iniciativas positivas que estão já em funcionamento, demonstram que outro mundo é possível e que ele começa a emergir, não por iniciativa dos governos manietados pelos grandes interesses do capital financeiro, mas por acção directa da cidadania.

Também na floresta, esta via é possível, juntar as pessoas através de associações, de cooperativas ou mesmo de redes informais, numa visão holística e partilhada por todos/as e encontra as melhores soluções para em cada local construir o território do futuro.

As populações serranas têm a memória da acção colectiva e da solidariedade. É preciso reinventar estas práticas em vez da mercantilização total de bens e serviços. Esta reinvenção pode e deve ser acompanhada e incentivada por adequadas políticas públicas dirigidas ao ordenamento do território e à boa gestão da floresta, que, no interior norte do Tejo, terá que ser colectiva.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.