Da Serra da Arada para o Mundo

Reportagem

José Gomes recebe encomenda de 10 toneladas para o estrangeiro

Da Serra da Arada para o Mundo

Este mel traz da serra da Arada características que lhe dão um sabor único. O sabor marca pela diferença e já fez clientes em todo o mundo. Este ano, José Gomes chegou mesmo a receber uma encomenda de cerca de 10 toneladas para a exportação. Apenas conseguiu entregar 307 quilos. Depois do incêndio que consumiu a serra em 2010, ficou sem matéria-prima para aumentar o volume de produção. Um cenário que vai tentando reverter ano após ano. Uma missão nada fácil, tanta que é a procura. A Gazeta da Beira volta à demanda, “à procura do que é nosso”, desta vez, no mundo da apicultura.

SANYO DIGITAL CAMERADesta vez fomos até à aldeia de Sá, freguesia de Carvalhais, S. Pedro do Sul. Tendo como pano de fundo a Serra da Arada tivemos à conversa com José Gomes. O produtor  não tem mãos a medir para as encomendas. Este ano conseguiu produzir cerca de 1800 quilos. As encomendas eram muito mais, teve que recusar algumas, “já quase não tenho mel para entregar”, explica o produtor. Um sabor distinto conseguido com o pólen recolhido na Serra da Arada que cada vez mais pessoas querem provar.

O apicultor até já pensou em colocar mais colmeias, mas não há hipótese. Sem alimento as abelhas acabam por morrer. A serra, a pouco e pouco, recupera do fatídico incêndio de 2010 que deixou a Arada a preto e branco, desnudada de flores. Um processo longo, apenas nas mãos da natureza.

Consequências do incêndio ainda se fazem sentir

Antes da calamidade, José Gomes conseguia produzir, em média, cerca de três toneladas, por ano. Em 2010, só produziu 200 quilos. O incêndio destruiu-lhe quase toda a produção. O prejuízo continuou nos anos seguintes… “Com a Serra em cinzas, as abelhas deixaram de poder recolher o pólen, não tinham alimento…. Portanto, não pude recuperar de imediato o número de colmeias”. O processo é longo, consoante as flores renascem das cinzas o produtor vai aumentando o número de colmeias. José Gomes acredita que o pior já passou: “Estes primeiros três anos foram complicados, havia poucas flores, mas acredito que o pior já passou, para o ano estamos confiantes… em 2015, se o ano for razoável em termos de clima, acredito que vai ser bem melhor, conseguiremos aumentar a produção”. Caso para dizer, quanto mais melhor, já que encomendas não faltam.

A apicultura é uma vocação

Com a exceção de cerca de uma década, em que esteve em Lisboa, José Gomes dedicou toda a sua vida à apicultura. Desde as suas memórias mais longínquas está lá: o Mel. “Desde muito pequenino que comecei a apreender. O meu pai era apicultor e fui apreendendo com ele”, relata. Muitas são as memórias que recorda com saudade: “Lembro-me que o meu pai nos pedia para guardar os exames e nós,SANYO DIGITAL CAMERAmuitas vezes, deixávamos as abelhas fugir; lembro-me, também, de construirmos os nossos próprios fatos de apicultor”, recorda José Gomes.

Memórias de infância que o tempo não apagou. A paixão antiga continua com a mesma intensidade. Como explica, “tenho sempre vontade de apreender mais. Ao longo da minha vida já obtive entre 20 a 25 diplomas, estou sempre pronto a participar em workshops, feiras de artesanato… é como diz o ditado, quanto mais sabemos mais queremos saber”.

Por conta do Mel já percorreu o país de lés a lés. Conhece muitos apicultores e tipos de mel. No meio, costumam fazer-se um género de intercâmbios, para cada apicultor poder ter diferentes variedades de mel. Troca de saberes e culturas que vão dando frutos. “Às vezes levo uma colmeia para um determinado local, deixo-a lá e depois tenho lá mel, assim, todos temos muitas variedades. Penso que somos muito solidários, uns com os outros”.

É apicultor por vocação e é por isso que, não raras vezes, não dá pelo tempo  passar. Desde que está reformado, dedica-se à arte a tempo e inteiro, nada que o aborreça. “Perco a noção do tempo, vou para lá e não saio de lá. Gosto muito do que faço, estou sempre por perto, a observar, a descobrir, a querer fazer mais e melhor”, explica.

Fatores que acabam por contribuir para a produção de um mel que muitos dizem não haver igual. “Ter gosto naquilo que se faz, mas sobretudo experiência e conhecimentos é essencial para produzirmos um bom mel. Houve uma grande evolução na apicultura, é muito importante irmos atualizando os nossos conhecimentos”, defende.

O Mel da Serra da Arada

SANYO DIGITAL CAMERASão muitos os condicionantes que podem alterar o sabor do mel. O mel produzido artesanalmente, por José Gomes, é fruto do pólen recolhido das flores da Serra da Arada. O mel “urze”, vulgarmente chamada de “queiró”, destaca-se pela sua cor, muito escura e pelo seu sabor, relativamente, menos doce. Como explica o apicultor, “é caso para dizer que é um mel que se come e não enjoa, digamos que tem um travo relativamente amargo que as pessoas apreciam. Por outro lado, a cor também chama a atenção, as pessoas ficam admiradas como o mel pode ter uma cor tão escura”.

O Mel da Serra da Arada foi considerado em 2006, pela FNAP (Federação Nacional dos Apicultores de Portugal) o segundo melhor mel do país. Depois disso, José Gomes nunca mais concorreu, “são demasiadas as burocracias”, justifica. O concurso, contudo, serviu para pôr em evidência o que já era uma certeza a qualidade do mel, sempre tão apreciado.

Para além deste mel, José Gomes tem ainda o chamado “multiflora” cujo pólen é recolhido nos campos agrícolas e o “rosmaninho”, o mais claro dos três.

Os segredos do Mel

Em conversa com a Gazeta da Beira, José Gomes foi revelando alguns dos segredos para produzir um bom mel. Para além da qualidade da matéria prima, o pólen recolhido na Serra da Arada, primeiro “importa encontrar um local adequado e ter muito cuidados com a higiene. Os estrados têm de ser muito bem limpos, regularmente. Depois há que “incentivar as abelhas”. O produtor explica: “na altura da Primavera, quando as flores começam a nascer, temos que incentivas as abelhas para elas reproduzirem mais, para assim termos mais mel. Para isso, usamos alimentação artificial, produzimos um xarope com levedura de cerveja, farinha e soja.”

Depois, como acrescenta o produtor, o mel deve ser guardado numa temperatura abaixo dos 15 graus e num local de pouca humidade.

As potencialidades do pólen

Engane-se quem pensa que o pólen só produz mel. Licores, vitaminas, velas e mesmo sabonetes, são muito os produtos que nascem destas flores. Uma boa ajuda para a saúde, garante José Gomes. “O mel tem propriedades antioxidantes e antibacterianas, ajuda a tratar anemias e mesmo o cancro da próstata”.

José Gomes promete continuar a produzir o mel da Serra da Arada, com toda a minúcia e empenho e a promover os seus produtos e a região de Lafões por todo o mundo. Em 2015, conta aumentar a produção, as encomendas não param de aumentar. Fica assim contada mais uma história, esta bem doce. Continuamos atentos, sempre “à procura do que é nosso.”Redação Gazeta da Beira