Cronicas do Olheirão
A precariedade como violação dos direitos humanos
A grande reforma que este governo fez foi tornar regra a precariedade dos contratos de trabalho. Hoje na verdade todos somos precários.
A grande justificação para a precariedade é a necessidade das empresas terem uma vida mais fácil e poderem produzir mais lucros, como se essa fosse a sua única função e não tivessem nenhuma relação com a satisfação de necessidades das pessoas.
A precariedade é também apresentada como uma reação necessária a um modelo assente na rigidez.
Como todas as coisas, se for na justa medida,a flexibilidade nas relações laborais pode ter um contributo positivo para as pessoas e a sociedade.
O problema é que temos vindo a assistir à instalação de um modo de vida assente na precariedade das relações laborais.
Acontece que a precariedade como modo de vida vai ter consequências terríveis para as pessoas e para a sociedade em geral.
O professor John McGee, um americano do Nebraska, EUA, que esteve em Lafões por mais de uma vez, escreveu que todas as pessoas têm quatro necessidades fundamentais:
– Sentirem-se seguras
– Sentirem-se amadas
– Sentirem-se capazes de amar e de retribuir o amor dos outros
– Terem controlo sobre o acontece na sua vida.
A precariedade das relações laborais torna as pessoas inseguras, limita a possibilidade de terem relações emocionais estáveis retira-lhe completamente o controlo sobre a sua vida.
Uma sociedade de pessoas que se sentem inseguras, que se sentem expostas a abusos, que não têm condições para expressarem a sua vida emocional e amorosa, porque não podem constituir família, e se sentem dependentes dos humores ou dos lucros de terceiros, tem tudo para vir a correr mal.
Recentemente, tenho encontrado pessoas com mais de trinta anos que me dizem que não têm nenhum controlo sobre a sua vida e que se sentem dependentes do poder de terceiros. Umas não sabem se vão ter trabalho, outras não sabem por quanto tempo vão ter trabalho e outras não sabem que salário poderão receber daqui a uns meses.
Se é inaceitável o que acontecia há alguns anos, em que, por exemplo, um professor sem alunos numa escola, não podia ir dar aulas a outra escola da mesma localidade.
É também, absolutamente, inaceitável que haja professores precários há vinte anos. Pessoas que ao fim de vinte anos a tentar entrar no mercado de trabalho não conseguiram criar o mínimo de instabilidade em termos de vínculo laboral ou vida familiar.
É crescente o número de pessoas que trabalhando sentem que se defenderem os seus direitos, escritos na lei, e não se submeterem a alguns abusos dos patrões ou encarregados podem ser despedidas.
Na linha telefónica Saúde 24 a empresa baixou os salários dos trabalhadores, coisa que a lei proíbe. Quem não aceitou foi despedido e para o seu lugar foram contratados outros a ganhar menos.
Isto é o grau zero do respeito pelo direito ao trabalho e é digno do capitalismo mais bárbaro e selvagem.
Sentir que temos algum controlo sobre a nossa vida é vital para a nossa saúde mental.
Com estas políticas iremos ter uma sociedade de adultos doentes e sem crianças pois ninguém sente a segurança necessária para ter filhos.
Se para ter empresas saudáveis é necessário ter pessoas doentes, algo está muito errado.
Cresce o discurso de que é preciso promover a natalidade, pois bem, há três coisas que podem ser feitas pelas empresas:
– Aumentar os salários
– Fazer contratos sem prazo aos colaboradores
– Cumprir os horários de trabalho e colaborar no apoio às crianças dando condições adequadas às mães e aos pais.
A precariedade, como está instalada, é uma forma de violação dos direitos humanos mais básicos, desde logo o direito de personalidade e da liberdade.
A direita extremista parece imaginar comunidades com condomínios privados para os ricos e terreiros à volta das cidades e das fábricas onde possamos montar as nossas tendas ou estacionar as caravanas pois só assim poderemos mudar de emprego e de casa tão rapidamente como eles gostariam.
• Mário Pereira
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