Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
A violência no desporto

De vez em quando, a violência no desporto em geral e em especial no futebol emerge como um tema de discussão nos meios de comunicação social, sendo, como é de regra, a grande sugestão uma mudança das leis.
As leis podem ter defeitos, mas não existem leis que impeçam as pessoas de deixarem vir ao de cima o seu lado selvagem.
As competições desportivas são uma forma de substituição das lutas mais violentas pela comida e pelos recursos entre os grupos de humanos ancestrais.
Numa sociedade em que a luta pela comida não vai além de evitar que alguém passe à nossa frente na fila para pagar, o desporto tornou-se uma forma ritualizada e, por isso, controlada de dar vazão aos instintos naturais de luta e competição, funcionado também como escape para as emoções de quem pratica e de quem assiste.
Não será por acaso que os desportos mais populares são aqueles em que há duas equipas a lutarem pela posse de uma bola e é muito difícil assistir a um jogo em que duas equipas lutam uma com a outra sem tomar partido, pelo menos se temos alguma ligação a uma delas.
Nas últimas semanas este assunto voltou a ser muito discutido devido à agressão de um jogador a um árbitro, sem dúvida um ato bárbaro.
O problema é valorizado apenas quando envolve o futebol a nível nacional, onde de facto há imensos focos de violência, embora a violência dentro do campo seja relativamente reduzida quando comparada com a violência em tornos dos jogos.
É impressionante a violência verbal que rodeia o futebol profissional contribuindo para a criação dum clima de violência de baixa intensidade mas constante.
O problema começa nos dirigentes que se esquecem de que são responsáveis por uma instituição e que ao serem eleitos deixam de ser simples adeptos.
Os clubes apoiam grupos organizados de adeptos especialmente violentos, cuja função é apoiar as equipas nos jogos, mas também intimidar os adversários e, como este ano já aconteceu, os jogadores da própria equipa e os árbitros dos jogos.
Aconteceu em mais do que um canal televisivo ver no noticiário pessoas a condenarem a agressão ao árbitro e mal ele acabou seguir-se um debate entre pessoas, cuja função seria comentar os jogos, a discutirem como adeptos furiosos, ao nível do que me lembro de ver nas tabernas, insultando-se uns aos outros e aos intervenientes no jogo sobretudo os árbitros.
Os comentadores que ganham dinheiro a dizer mal dos árbitros deveriam serem obrigados a arbitrar um jogo por mês num campeonato distrital e sem GNR para saberem quantos nomes tem a sua mãe.
Depois há a constatação de que pessoa relativamente pacatas são capazes de comportamentos inaceitáveis quando assistem a um jogo, independentemente do que está em disputa.
Eu vi, há alguns anos atrás, um jogo em que jogavam crianças de 11 ou 12 num torneio de Verão organizado por uma câmara ser interrompido porque os adeptos de uma das equipas invadiram o campo.
Há dias a propósito desta discussão um árbitro contava como ficou arrepiado com o comportamento dos pais das crianças duma equipa do Benfica, em que a maioria pertenceria à elite social mais fina.
Tudo isto só é possível porque há em nós uma predisposição para nos identificarmos com estes lutadores, sejam os que dão o físico dentro do campo ou os que lutam nos estúdios de televisão, que também têm os seus fãs.
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