Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Tolhidos pelo medo

No passado dia 17 tive o privilégio de assistir, no Cine Teatro Jaime Gralheiro em S. Pedro do Sul, a uma palestra do professor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, cujo título era “Deixem as crianças brincar”.
Ele discorreu longamente sobre a necessidade das crianças brincarem para terem um bom desenvolvimento motor e emocional, sem o qual terão dificuldades em aprender e lamentou que as crianças e jovens de hoje passem 50 horas por semana na escola e que durante esse tempo não as deixam, nem tenham onde, brincar.
Ele apresentou dados de diversas organizações internacionais em que Portugal aparece como um dos países onde as crianças brincam menos. Perdeu-se o hábito de brincar na rua e há poucos sítios nas nossas vilas e cidades onde as crianças possam brincar livremente.
Das muitas razões que ele apontou para não deixarmos as crianças brincarem a que mais me preocupa é o medo, que existe nas nossas casas, onde já não deixamos as crianças correrem, andarem de bicicleta, brincarem com a terra, pedras ou paus, daí resultando que há crianças a viverem em moradias com quintais, que passam mais tempo dentro de casa a olhar para um ecran do que a brincar no exterior.
Os pais têm medo do que possam dizer as avós, as tias ou os vizinhos se deixarem uma criança brincar sozinha e algo correr mal.
Esse medo também presente nas escolas tem levado a coisas notáveis. A primeira preocupação, nas escolas construídas ou requalificadas recentemente, foi substituir os espaços de recreio com zonas de terra ou árvores por betão ou materiais sintéticos, certamente, para que as crianças na se magoem. O problema é que agora fora das salas de aula pouco mais há para fazer do que olhar para os telemóveis.
Tenho ouvido histórias fantásticas de jardins-de-infância em que as crianças durante uma semana de sol não foram ao recreio, porque a auxiliar estava com medo, pois um dos pais tinha-se queixado que a sua criança se magoara no recreio.
Em poucos dias ouvi várias histórias similares de educadoras que não deixavam os miúdos brincarem no exterior, porque alguns pais se queixaram que o filho sujou a roupa ou levava areia nos sapatos.
Os pais têm medo que os meninos se aleijem, os educadores, professores e auxiliares têm medo que os pais façam queixa deles à direção, a direção tem medo que os pais digam mal no facebook ou nos jornais e toda a gente fica tão tolhida de medo que optam pela pior das soluções.
O povo diz: “quem tem medo arranja um cão”, mas nestas histórias a solução a tem sido: “quem tem medo fecha as crianças”.
A situação não é melhor entre adultos, inúmeras as vezes tenho ouvido coisas como: “não posso dizer isso”, “não posso tomar esta posição”, “não posso fazer isso” e outras similares, porque senão apanham-me de ponta ou podem prejudicar-me.
Este medo, embora irracional, é muito perigoso, pois uma sociedade, que educa as suas crianças e jovens com base no medo e em que os adultos têm medo de assumir opiniões e tomar decisões, tem tudo para vir a correr mal.
23/02/2023

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