Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Quando Deus se intromete a política não fica melhor

Já havia confusões suficientes na nossa vida política criadas pelos homens e não nos faziam falta os problemas com as obras para receber as Jornadas Mundiais da Juventude, onde vemos confusões ainda maiores do que é habitual com as obras públicas.

A ideia de construir um altar/palco em que cabem 2000 figurantes, padres, bispos e alguns figurões que querem ser vistos perto do Papa, é em si mesmo uma coisa bizarra e se esse palco custar 5 milhões de euros é digno de ser conservado como monumento à estupidez humana.

Que ninguém assuma as responsabilidades pelo projeto nem pelos custos, também não é coisa que nos possa espantar. Uma das razões para esta confusão e o silêncio que cobre estes projetos e gastos é que toda a gente nesta história tem objetivos não confessáveis.

A realização da JMJ em Portugal é importante para o governo pelo impacto na economia e porque é um evento capaz de promover o turismo e a imagem do país e o nosso Presidente terá uma ótima oportunidade de aparecer nas notícias e fazer uma selfie com o Papa.

Os presidentes das câmaras de Lisboa e de Loures perceberam que tinham uma oportunidade para trazer muitos turistas para os seus concelhos, mas também para conseguirem um brutal financiamento do Estado para transformarem em parques urbanos áreas degradas dos seus concelhos, com o bónus de puderem fazer as obras sem as chatices dos concursos públicos.

A hierarquia da igreja católica viu uma oportunidade para ganhar visibilidade junto do Vaticano e dinamizar as suas hostes com as despesas pagas pelo estado.

Ao nível do discurso público todas as partes se dizem empenhadas no sucesso das JMJ, mas na verdade cada uma tem objetivos próprios e é por isso que não havia coordenação. Acredito que daqui em diante vai haver alguma coordenação porque as partes interessadas, terão percebido, tarde, que podem por em causa os objetivos próprios.

O grande pecado é o Estado (NÓS) financiar um evento da Igreja Católica e obras que deveriam ser feitas pelas câmaras interessadas, pois é lá que os turistas irão e onde ficarão os parques urbanos criados para a JMJ. A única consequência para Lafões e o interior é que muita gente irá a Lisboa e Loures gastar o seu dinheiro.

Deus aparece também envolvido em declarações que li no Expresso atribuídas a André Ventura, por exemplo:

“Foi Deus que me atribuiu a missão de mudar Portugal”

“O partido nasceu para salvar Portugal e que foi esse o mandato que recebeu”

“Tive uma visão na Batalha”

“Estamos quase, quase a ver a terra prometida”

O estado mental do autor destas frases pode resumir-se numa frase que foi contada por um pessoa com experiência pessoal de esquizofrenia e que ela atribuía ao bispo D. Oscar Romero: Se falas com Deus, isso é oração, mas se Deus fala contigo isso é esquizofrenia”.

A finalizar, declaro nada ter contra a ida, para a Mota e Companhia, do Dr. Paulo Portas (uma pessoa que gosta de afirmar, publicamente, a sua fé católica), mas há pessoas que deviam ser obrigadas a ler em voz alta o que escreveram quando o Dr. Jorge Coelho foi administrador dessa empresa…

09/02/2023


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