Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Uma Moedinha

Os sucessivos avisos da proteção civil e as imagens das várias televisões, quase me faziam acreditar que as inundações do início de dezembro, teriam sido a segunda via do grande dilúvio bíblico.

Embora, felizmente, tenhamos tido um inverno chuvoso, até agora tem sido tudo dentro de parâmetros normais (dos Santos ao Natal … inverno natural) e não podemos comparar isto com inundações a sério, que temos visto em alguns países pobres ou outras que já ocorreram em Portugal.

É claro que houve lojas e casas inundadas, a maioria em sítios onde é previsível que isso aconteça quando chove com intensidade, por coincidência sempre que víamos um ribeiro a inundar uma rua lá estavam também muros e construções diversas a limitar o seu leito.

É claro, que, como de costume, toda a gente veio pedir apoio ao governo, como se o governo fosse a única entidade com responsabilidades que existe em Portugal.

Ver o presidente da Câmara de Lisboa a pedir apoio ao estado (que somos também nós) para compensar os lisboetas e a Câmara de Lisboa  pelos estragos causados pelas inundações, com aquela cara de quem está a pedir uma moedinha para comer, fez com que me viessem à ideia alguns pensamentos.

É um facto que toda a água que inundou as ruas de Lisboa foi chovida no concelho e só provocou estragos porque alguém lhe tapou o caminho.

O concelho de Lisboa é marginado pelo rio Tejo, mas não foi dele que veio a água que inundou a cidade. No Ribatejo nem chegou a sair do leito normal. Acresce que não há nenhum outro rio ou ribeiro nascido fora do concelho que atravesse a cidade e pudesse ter provocado as inundações.

Os estragos em Lisboa foram causados pelas sucessivas construções que têm obstruído os canais naturais de escoamento das águas da chuva. Ideia que já vem do tempo do Marquês de Pombal que construiu a baixa em cima duma ribeira, quando por alguma razão os árabes, que habitaram Lisboa durante alguns séculos, tinham construído as suas casas nas colinas.

O que aconteceu em Lisboa tem apenas que ver com pensamentos, atos e omissões da Câmara de Lisboa ao longo dos anos. Assim, se os pecados são da sua exclusiva responsabilidade é natural e lógico que lhe caiba a penitência.

Que me lembre, não consta que algum presidente da Câmara de Lisboa tenha andado por aí a distribuir o dinheiro que recebeu do IMI respeitante às construções, que autorizaram, nos leitos das ribeiras e arroios que atravessavam a cidade.

Acresce que o montante dos prejuízos causados pelas inundações é uma gota de água no orçamento (mais de 1 000 milhões de euros) da Câmara de Lisboa, pelo que ver o Moedas a pedir-nos uma moedinha é triste e lamentável.

Coincidência ou não, não ouvi nenhum presidente de câmara pedir apoio para demolir os muros e construções que estão a obstruir os rios e ribeiros…

29/12/2022


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