Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Porque faltam professores?

São recorrentes as notícias de que faltam professores e, pior do que isso, de que não há jovens interessados em seguir a carreira docente.
Se eu fosse um jovem de 18 anos e pudesse escolher entre vários cursos, só escolheria o ensino se sentisse uma vocação, quase no sentido que é usado para as vocações religiosas.
Convém perceber porque é que esta carreira se tornou tão pouco atrativa.
Parece-me óbvio que o sistema de colocações de professores é um enorme desincentivo aos jovens para escolherem esta carreira.
Há dias uma professora dizia-me que só ficou efetiva numa escola quando fez 50 anos. Uma outra, como muitas, não consegue uma escola perto da residência e tem filhos que se tornaram adolescentes sem a presença da mãe durante as semanas.
Uma carreira que te oferece como expectativa não saber onde vais trabalhar até aos 50 anos é só mesmo para quem gostar muito.
A origem da situação remonta a 40 e 30 anos atrás quando o alargamento da escolaridade obrigatória precisou de muitos jovens professores, que são aqueles que hoje estão prestes a reformar-se. Acontece que o número de alunos foi diminuindo e começaram a ser necessários menos professores, sendo residual o número de novos professores contratados em cada novo ano letivo.
Os poucos que entravam iam ficando em situações precárias concorrendo a diferentes escolas ano após ano, muitas vezes em horários incompletos e ainda com o acréscimo de apesar de acumularem anos de serviço receberem sempre o salário do início da carreira.
No cômputo geral os salários dos professores efetivos não comparam mal com outros técnicos com a mesma formação, por isso a questão não está nos salários da carreira docente, mas sim no caminho das pedras que as pessoas têm de fazer para entrar na carreira.
Na base destas distorções está um sistema “maléfico” de colocações de professores que tem servido alguns propósitos economicistas do ministério, mas tem sido defendido intransigentemente pelos sindicatos dos professores, ao ponto de ser uma das vacas sagradas do sistema educativo em que nenhum ministro da educação se deu ao trabalho de mexer.
Este é um esquema que serve apenas os professores que já são efetivos e que são aqueles da geração do Mário Nogueira e dos outros dirigentes sindicais que vemos na televisão sempre muito aguerridos contra o Ministério da Educação.
Este esquema de colocação dos professores é também extremamente desincentivador da fixação destes quadros nas pequenas localidades do interior. Essa é também uma das razões porque importa mudar o sistema.
Se um jovem tiver a expetativa de poder ficar efetivo numa escola ou numa área geográfica pequena aos 30 anos, tenho a certeza que voltará a haver muitos e bons candidatos a professores.
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