Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

A arte de facilitar as coisas

Estacionar um carro é um das manobras básicas que se aprende nas aulas e matéria obrigatória dos exames de condução, pelo que todos os condutores deveriam estar preparados para estacionar em espaços limitados.

Talvez por acreditar nisso quem desenha os estacionamentos, nomeadamente os parques de estacionamento, assuma que todos os condutores conseguem estacionar num espaço limitado e tendem a aproveitar o espaço disponível para criar o máximo de lugares e, por outro lado, todos nós gostamos de encontrar um lugar vago mesmo que seja apertadinho.

Eu nunca tive muito jeito para as manobras necessárias para entrar e sair desses espaços apertadinhos e com a idade dei comigo a pensar que daria muito jeito que os lugares de estacionamento, nas ruas e sobretudo nos parques de estacionamento, em que se circula apenas num sentido, em vez de terem uma orientação perpendicular em relação à faixa de rodagem poderiam ser oblíquos possibilitando entrar e sair com um mínimo de manobras.

Isso facilitar-me-ia muito as manobras, diminuindo o risco de dar um toque noutro carro e parece-me que facilitaria a fluidez do trânsito.

Como há regras para tudo, não sei se é o caso ou se, além de alguma economia na construção, é uma tradição que se vai transmitindo de geração em geração só porque ninguém pergunta porquê.

Foi por isso com alguma surpresa que, há algumas semanas atrás, me deparei no aeroporto de Eindhoven, nos Países Baixos, com um parque de estacionamento em que os lugares são oblíquos relativamente ao sentido de circulação dos carros com o acréscimo de os espaços aparentemente desperdiçado entre os carros ser usado para circulação das pessoas.

Este parque de estacionamento pareceu-me muito mais simpático do que costumam ser os parques de estacionamento nos aeroportos ou nos supermercados e centros comerciais.

O problema da mobilidade numa sociedade envelhecida e na nossa região em particular é um tema muito importante, pois neste momento deixar de conduzir um carro significa ficarmos isolados e dependentes de terceiros, pelo que precisamos de continuar a conduzir até ao limite das nossas capacidades, nomeadamente as que são precisas para estacionar um carro.

A tecnologia vai dar uma grande ajuda com os carros capazes de andarem e estacionarem sozinhos, mas isso será geral apenas quando os agora novos forem velhos.

Hoje já é aceite a ideia de que os espaços públicos devem ser adaptados para as pessoas com deficiências na mobilidade, mas coloca-se o problema de saber quem são as pessoas com deficiência. Uma pessoa que usa uma cadeira de rodas, claro que sim, mas porque não também um idoso com algumas dificuldades de mobilidade ou um jovem que se lesionou no desporto e anda de muletas.

A solução, no imediato, é os projetistas partirem do princípio de que todos temos ou teremos limitações nas capacidades motoras e pensarem as ruas e os estacionamentos para quem tem limitações e não para os atletas.

16/06/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *