Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Mérito ou sorte?

Há já algumas semanas li num jornal que a presidente do Conselho de Administração da Sonae recebeu de prémio de gestão cerca de 400 000€, valor muito próximo daquilo que a SONAE recebeu do estado como apoio ao aumento do salário mínimo dos seus trabalhadores.

Legalmente até pode estar tudo certo.

Contudo do ponto de vista moral parece tudo errado.

A questão é sobre os valores em que assenta a nossa sociedade e a naturalidade com que aceitamos as desigualdades.

Independentemente, dos seus méritos a presidente da administração da SONAE está nessa posição muito mais por ser filha do fundador da empresa do que por outra razão qualquer.

Não tenho duvidas que a SONAE terá nos seus quadros muitos engenheiros, economistas e outros técnicos que serão tão ou mais inteligentes que a sua presidente, mas não têm a mínima hipótese de virem a ser presidentes da empresa por falta de pedigree.

Do ponto de vista moral e até em termos de honra pessoal parece-me vergonhoso que a SONAE recorra a apoios do estado para aumentar os salários dos seus trabalhadores mais mal pagos e depois entregue esse dinheiro como prémio à sua presidente.

Podem dizer-me que uma coisa não tem a ver com a outra, mas se a SONAE tinha esse dinheiro qual a razão, porque escolhe aumentar a sua presidente e, por certo, os restantes administradores em vez de aumentar os seus trabalhadores?

Tenho por certo que no conselho de administração da SONAE terão discutido o assunto e achado que os resultados económicos da empresa se devem às suas extraordinárias capacidades de pagar mal a fornecedores e aos trabalhadores e não ao esforço que cada dia é feito pelos caixas e repositores dos seus supermercados.

Está muito difundida a ideia de que há pessoas com méritos muito especiais e que por isso têm direito a todo o tipo de benesse.

Acontece que isso não é bem verdade e na absoluta maioria das vezes mais do que o mérito são as circunstâncias da vida que criam as oportunidades.

Retomando o caso da presidente da SONAE, é óbvio que a filha de um caixa do Continente não tem as mesmas oportunidades de chegar ao tipo que a filha do dono, mesmo que tenha nascido com um quociente de inteligência superior.

Não tem as mesmas oportunidades, desde logo porque não pode frequentar os mesmos colégios nem as mesmas universidades.

É necessário que as pessoas, que têm a sorte de nascer em famílias com recursos, que lhes facilitam o caminho, tenham consciência de que mais do que o seu esforço são essas circunstâncias que lhes possibilitam estar na posição em que estão.

Se uma pequena minoria delas tivesse essa consciência o mundo tornar-se-ia um lugar mais decente.

Convém não perdermos a noção que as nossas vidas dependem grandemente do tempo, do lugar e da família em que nascemos.

Certamente, é a sorte e não e esforço individual que permite às nossas crianças estarem, confortavelmente, nos seus quartos com os seus computadores e telemóveis enquanto as crianças ucranianas morrem na guerra ou têm de fugir de casa.

12/05/2022


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