Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
E se os chineses tiverem razão?
Ao longo de 2021 foram várias as notícias dos ataques do governo chinês às empresas gigantes que operam na internet, obrigando algumas delas e reduzir a sua dimensão e a partilharem os dados que possuem com o governo.
Em princípio esta ideia, vinda de um governo autoritário, levanta diversos problemas, pois parece ser uma tentativa do governo ter o controlo sobre esses dados e com isso aumentar o controlo sobre os cidadãos e a sociedade em geral.
É fácil concordar que não parece grande coisa um governo ter acesso a tantos dados sobre os cidadãos, mas não deixa de ser, igualmente, perigoso que empresas privadas possam recolher, armazenar e comercializar dados sobre nós sem nenhum controlo público.
No ocidente ninguém sabe que dados recolhem a Google, o Facebook, a Microsoft, a Apple, Amazon e muitas outras, menos conhecidas mas igualmente perigosas, mas ficamos muito escandalizados quando os chineses querem saber.
Eu, porque acredito que podemos ter mais controlo sobre um governo eleito do que sobre essas empresas, penso que estes dados são mais perigosos se controlados apenas por empresas privadas, pois eles podem facilmente ser usados para influenciar e controlar sociedades inteiras.
Sabe-se que já em 2013 o Facebook fez experiências em que controlando a forma como as notícias apareciam nas contas de cada pessoa conseguiam aumentar a probabilidade de elas votarem ou não votarem. Imagine-se o que conseguirão fazer agora…
Acresce que o modelo de gestão destas empresas é tudo menos transparente mesmo segundo os padrões da Bolsa de Nova York.
Talvez muitas pessoas não tenham consciência de que os seus relógios inteligentes podem transmitir dados sobre as suas pulsações, o sono, o que andam, a tensão arterial e mais o que eles medem às empresas que os fabricam, que alguns vídeos jogos podem transmitir as expressões faciais dos jogadores aos seus fabricantes ou que a maioria das APPs, que instalamos nos nossos telemóveis, têm o acesso à câmara e microfone do telemóvel e também à nossa localização.
O negócio dessas empresas é o comércio de dados sobre o que fazemos, as coisas que procuramos saber ou comprar e até as nossas emoções ou dados do nosso corpo para venda de publicidade dirigida. É possível que, se o seu relógio comunicar que dorme mal, comece a receber anúncios de comprimidos para dormir ou de colchões milagrosos.
Face a isto parece-me que os governos do ocidente deverão fazer o mesmo que o chinês e terem acesso a todos os dados que as empresas recolhem sobre os seus cidadãos e ao que fazem com eles. Penso ser a única forma de termos algum controlo sobre esses dados.
Eu gostaria muito de entender as razões que levam as pessoas a confiarem mais em empresas privadas cujos gestores são conhecidos pelas suas tendências megalómanas e anti-sociais do que num governo eleito. Não será por influência dessas empresas?
13/01/2022

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