Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Vizinhos mas não falamos

A história de Portugal que me habituei a ouvir e a ler conta os primeiros séculos de Portugal como uma série de lutas heróicas contra árabes e castelhanos e o que nos ensinam, sobre os reinos vizinhos que foram existindo na Península Ibérica, pouco mais é que o nome de algum tratado ou de alguma batalha.

Há um tempo, com a consciência de que não sabia nada sobre a história de Espanha, resolvi comprar um livro que se chama, exactamente, História de Espanha escrito por três espanhóis: Julio Valdeón, Joseph Perez e Santos Juliá, editado pelas edições 70, pois também tinha alguma curiosidade em conhecer o modo como a história espanhola olha para Portugal.

O livro consegue fazer um relato muito interessante da vida e das guerras nos territórios de Castela, Aragão, Astúrias, Navarra, Catalunha, Andaluzia, Galiza, etc; começando no ano 700 depois de Cristo segue até cerca do ano 2000, sem, praticamente, dizer a palavra Portugal ou falar do nosso território.

Do século VII ao século XVI, o nome de Portugal é mencionado 2 ou 3 vezes, sendo a nossa independência e os acontecimentos do reinado de D. Afonso Henriques referidos em duas linhas. As nossas lutas contra os árabes merecem outras duas linhas para referir a conquista de Santarém e Lisboa e um ataque do rei D. Sancho II contra Silves.

Até nos anos em que os Filipes reinaram, Portugal é uma nota de rodapé em comparação com a atenção dada à situação na atual Bélgica ou às tensões na Catalunha e Aragão.

Deu para perceber que a independência conseguida por D. Afonso Henriques e a sua manutenção pelo D. João II e D. João IV, foram possíveis porque coincidiram com fases de grandes conflitos entre os pretendentes às coroas dos vários reinos da Península e com guerras nos territórios que Espanha tinha em Itália, nos Países Baixos ou no sul de França, os quais, do ponto de vista dos reis de Castela, eram muito mais importantes que este pedaço de terra pouco produtiva e habitada por pouca gente.

Fiquei a saber por exemplo que a grande fonte de riqueza de Castela, durante séculos, foi a lã e não o ouro que vinha da América, o qual lá como cá foi desperdiçado ou esbanjado, continuando a Espanha, até bem recentemente, sempre tão falida como Portugal.

Ao terminar de ler um livro, que tem mais de 600 páginas, ficou-me a certeza de que se alguém na China ou na América o ler ficará sem saber que Portugal faz fronteira com a Espanha.

Nós contamos a nossa história como se Espanha fosse apenas um bocado de terra que nos separa da Europa e eles contam a sua história como se Portugal não existisse ou fosse irrelevante, o que não pode deixar de ter efeitos no modo como nos relacionamos.

Ler livros de história ajuda-nos também a ter consciência de que períodos de 10 anos de paz foram coisa muito rara até ao final da II Guerra Mundial, desmentindo aqueles que dizem que antigamente é que era bom porque havia paz e ordem.

16/12/2021


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