Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Democracia é viver sem medo

O Notícias de Vouzela publicou no passado dia 10 de Agosto as listas concorrentes aos órgãos autárquicos dos concelhos de Lafões. Em primeiro lugar quero saudar todos os que integram essas listas pelo seu empenho na vida das nossas comunidades

Passada a curiosidade inicial pareceu-me particularmente curioso que em S. Pedro do Sul e Vouzela o PSD e o PS concorram a todas as freguesias, que haja candidaturas da  CDU a bastantes e que em Alcofra tenha aparecido uma candidatura independente

Em Oliveira de Frades apenas a CDU e  a Coligação PSD/CDS-PP  se apresentam em todas as 8 freguesias, enquanto o PS não conseguiu apresentar listas em Pinheiro de Lafões, S. João da Serra, S. Vicente de Lafões e Destriz/Reigoso e a candidatura Nós Cidadões também não conseguiu fazê-lo em Pinheiro de Lafões, S. João da Serra, Ribeiradio e  Arca/Varzielas.

Sabendo de fontes seguras, que tanto o PS como a candidatura Nós Cidadãos desenvolveram esforços muito sérios para apresentarem candidaturas em todas as freguesias impõem-se a pergunta: porque será que não o conseguiram?

A primeira explicação poderia ser a desertificação.

Significaria isso que as freguesias rurais ficaram com tão poucas pessoas e na maioria idosas que hoje não há pessoas com energia e capacidade em número suficiente para fazer mais do que uma ou duas listas.

No caso de Oliveira de Frades o poder autárquico pós 25 de Abril (antes não existia) sempre teve a ambição de fazer da vila uma terra grande, concentrando lá os serviços, as indústrias e as pessoas e com isso reforçou este processo de desertificação.

Esta seria um justificação lamentável mas aceitável. Infelizmente, há uma outra explicação que é o medo.

Conheço quem tenha trabalhado para formar listas em algumas freguesias e não tenha conseguido, ouvindo um número muito preocupante de respostas do tipo: “pode contar com o meu apoio mas eu não posso entrar na lista”.

O medo é em alguns casos motivado por uma qualquer ameaça real, mas há outro medo mais estrutural  e difuso que se traduz na perceção de que se concorrer numa lista contra o poder instalado ou se não aceitar integrar a lista do poder se fica sujeito a ter problemas no futuro.

Há pessoas que referiram querer mas não poder integrar uma lista concorrente ao PSD/CDS-PP, porque estão ligados a uma empresa que é fornecedora da Câmara,  outras porque têm pendente algum processo na câmara, outras ainda porque são familiares de alguém que trabalha na Câmara,  outras porque estão ligadas a uma organização que recebe apoios do município, etc…

Do lado contrário conheço quem tenha recebido verdadeiras intimações para integrar as listas do partido do presidente da câmara.

Viver em democracia é o contrário disto. A primeira condição é poder viver sem medo.

É normal que algumas pessoas participem nas listas por idealismo e que outras o façam para  salvaguardar vantagem futura ou por se sentirem  em obrigação perante alguém.

Anormal é termos chegados a um ponto em os cidadãos condicionam a sua participação cívica por sentirem medo das reações daqueles que deveriam ser os seus representantes.

Como cidadãos temos de pensar no que temos andado a fazer e no sobretudo no que teremos de fazer nas eleições que se aproximam.

Ter medo do poder é próprio das ditaduras, mas as democracias parecem ter alguma tendência para o cansaço acabando os cidadãos, por vezes, a elegerem ditadores, o que acontece hoje e já aconteceu noutras épocas históricas.

Os primeiros imperadores romanos eram eleitos pelo senado e Hiter também foi eleito. Nos nossos dias têm sido vários os eleitos que depois se comportam como se o povo os tivesse eleito para serem imperadores: Putin, Erdogan, Chaves, Trump, são apenas alguns e maus exemplos.

Por mim, prefiro que os eleitos queiram apenas representar o povo.

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