Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Apontamentos dos dias que correm
Com o agravamento da pandemia e o novo confinamento, mais as eleições presidenciais não me faltam temas, mas como há tantas crónicas e notícias sobre estas questões não me parece que possa dizer algo de novo ou de relevante. Assim escolhi escrever alguns apontamentos soltos sobre outras situações da nossa vida.
Uma das coisas que me tem causado alguma perplexidade é o funcionamento da Linha Saúde 24. Devo dizer que me parece uma excelente ideia e que considero o seu trabalho essencial. A minha perplexidade não vem do trabalho que a Linha Saúde 24 faz, mas do facto de ser feito por enfermeiros.
Estes enfermeiros fazem coisas como orientar pessoas para irem ou não ao hospital, prescrever testes à COVID 19 e até passar baixas, coisas que normalmente não podem fazer no contacto presencial com as pessoas nos Centros de Saúde ou nas urgências normais.
Parece perpetuar-se um modelo funcional em que os enfermeiros eram subordinados dos médicos, que teria justificação quando a formação dos enfermeiros tinha um nível equivalente ao que é hoje o ensino secundário. Felizmente, evoluímos para uma situação em que a maioria dos enfermeiros têm mestrados, mas isso não tem sido acompanhado de um reforço da sua autonomia e das suas responsabilidades mais de acordo com esse nível de formação, o que seria uma forma de melhorar o acesso aos cuidados de saúde durante a crise, mas também no futuro, sem gastar mais dinheiro. Por estes dias, na síntese das notícias que chega ao meu telemóvel apareceu uma que me chamou a atenção pelo modo cru como expõe o grau de desligamento das elites face aos problemas quotidianos das pessoas comuns. A notícia, retirada de uma revista especializada no mundo da moda e do espectáculo, tinha como título que uma conhecida apresentadora da televisão foi obrigada a trabalhar no dia de anos da filha acrescentando que a filha compreendia a situação e perdoava à mãe.
O tom da notícia denotava que quem a escreveu lamentava genuinamente a situação.
Preocupa-me profundamente que estas pessoas não entendam que o normal, entre nós, é trabalhar no aniversário da filha, do filho, da mãe, do pai e no nosso.
Também reveladora foi a notícia de que os gestores da TAP decidiram aumentar os seus salários, porque passaram a ter mais responsabilidades, e que nesse processo tenham tido o apoio da comissão de vencimentos, cuja função parece ser fixar os vencimentos dos gestores e as suas próprias avenças
Numa empresa em que os gestores só recebem o seu salário porque lá puseram o nosso dinheiro e em que a sua principal função, nos próximos tempos, será despedir trabalhadores e reduzir os salários dos que ficarem é difícil ao senso comum compreender o sentido e a oportunidade destes aumentos.
O tom natural destas e outras notícias leva-me a pensar que vivemos em universos paralelos e já perdemos a capacidade de compreender a vida e as dificuldades dos outros, restando-nos a esperança de que quando estes universos chocarem a explosão não seja demasiado destrutiva.
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