Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Era melhor não
As comemorações na Assembleia da República, no dia 25 de abril, já fizeram correr muita tinta, mas uma das formas de celebrar o 25 de Abril é exprimir as nossas opiniões.
A polémica foi aproveitada por pessoas que nunca gostaram da democracia, mas seria ceder ao medo não dizer o que penso.
Indo direto ao assunto. É minha opinião que a Assembleia da República não deveria ter feito nenhuma comemoração presencial, com cerca de 100, ou mesmo só 10 pessoas.
Seria do mínimo bom senso aplicar a si própria as leis que aprovou, as quais, ainda há quinze dias, impediram todo o país de comemorar a Páscoa, que além de ser uma celebração religiosa é também um momento de reunião das famílias.
Muitas pessoas terão, como eu, sentido especialmente a falta da família, mas conheço muitas pessoas que sentiram profundamente a impossibilidade de participarem nas celebrações religiosas.
É verdade que a religiosidade do nosso povo já teve melhores dias, mas também há muitos “democratas” para quem a democracia é uma coisa que se festeja no dia 25 de abril e está feito.
Os argumentos a favor da decisão da Assembleia da República têm muito associada a ideia de que há umas celebrações melhores que outras e alguns deles têm subjacente a ideia de uma certa superioridade moral da esquerda em geral e dos velhos anti-fascistas em particular.
Se há coisa em que os democratas estarão de acordo é que a democracia além da liberdade implica também a ideia da igualdade entre as pessoas (que é, apesar de tudo, uma herança do cristianismo), o respeito pelos direitos humanos e pela dignidade de cada pessoa.
A superioridade moral não é uma coisa que os próprios possam afirmar, ela só existe se lhes for reconhecida pelos outros. Acontece que esse reconhecimento só pode vir do respeito, na teoria e na prática, por estes valores. Assim, alguma autocrítica e humildade da esquerda neste domínio seriam muito bem vindas, para bem dos ideais que diz defender.
Para os verdadeiros democratas não haveria nenhum problema em não se realizarem comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, pois esses seguem o velho slogan. 25 de Abril Sempre!
As celebrações do 25 de Abril fazem, sobretudo, falta para alguns “democratas” fazerem a sua afirmação anual de fé na democracia, a começar logo pelos partidos políticos: os velhos e os novos. Diga-se que a nossa sociedade seria bem melhor se, além de pregarem também praticassem a democracia e a liberdade de pensamento dentro das suas casas.
A melhor homenagem que os deputados poderiam fazer ao 25 de Abril era acabar com essa coisa absolutamente corrosiva da democracia que é a disciplina de voto na Assembleia da República.
Só para compararmos com outros, deixem-me dizer que os Países Baixos cancelaram as celebrações dos anos do rei, no dia 27 de abril, e as comemorações dos 75 anos do fim da Guerra, no dia 5 de maio, duas datas muito importante para todos os holandeses.
Admitindo que o argumento da Páscoa e o exemplo acima não são suficientemente bons, há um outro que me parece mais forte.
Um dos elementos centrais nos direitos humanos é a dignidade da pessoa na vida e na morte e por isso todas as sociedades valorizam os rituais funerários.
Uma das privações introduzidas pelo confinamento em que vivemos é o direito a um funeral condigno das pessoas entretanto falecidas.
Eu não pude ir ao funeral de uma pessoa amiga que, devido às medidas de contenção, foi enterrada quase às escondidas e à pressa, sem que os amigos tenham podido despedir-se dela ou dar um abraço à família.
O grande problema, que vejo, nas cerimónias do dia 25 de Abril na Assembleia da República é que revelam uma enorme falta de empatia com o sofrimento das pessoas.
Isto sim é um enorme perigo para a democracia.
Mario Pereira (Abril 2020)
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