Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Demasiado amor

Nos últimos tempos, talvez desde que morreu José Mário Branco, tenho dado comigo a pensar qual a razão para que as canções dos artistas portugueses, que se ouvem na rádio e na televisão, tenham todas como tema o amor e já não se façam canções de intervenção social e política como “antigamente”.

Embora, não seja um grande conhecedor da música portuguesa atual reconheço, que há um naipe de artistas novos muito bons e que compõem boas músicas.

As canções são cantadas de tal modo que as letras, muitas vezes, não são percetíveis, pelo nem sempre consigo entender o que dizem, mas quando consigo entender as letras das canções parece-me que andam sempre à volta dos amores e desamores.

A maioria das canções que vou ouvindo é no rádio quando ando de carro, pois não tenho o hábito, nem a possibilidade, de ouvir música enquanto trabalho. Digo isto para deixar claro que não pretendo ter uma opinião muito fundamentada e que não fiz nenhum estudo estatístico sobre este assunto.

Falo só de um sentimento que se foi entranhando em mim, pois ao ouvir uma canção nova, quando dou atenção à letra, independentemente de reconhecer que há poemas muito belos e muito interessantes sobre o amor, acontece-me, com frequência, pensar: “lá vem eles outra vez…”.

Parece-me estranho que não se façam canções com outros temas ou, se elas existem, que  não passem na rádio.

Com situações de vida tão complexas como as que existem hoje em dia, é estranho não se ouvirem canções que falem, por exemplo: do desemprego, da separação das famílias, dos empregos precários, da poluição, da corrupção, dos horários de trabalho abusivos, das crianças que passam a vida nas creches e nas escolas, das desigualdades sociais crescente, etc…

Talvez a inspiração e a criatividade sejam impulsionadas pelas situações em que nós próprios sentimos perdas ou constrangimentos e não tanto pelas situações que afetam as outras pessoas.

Há aqui qualquer coisa que faz com que os artistas, nomeadamente os poetas não escrevam sobre os problemas dos outros.

Parece que só é possível fazer canções sobre o que não têm e sentem falta:

Quando não havia liberdade os artistas faziam canções sobre ela.

Quando não havia dinheiro havia canções sobre ele.

Etc..

Voltando a José Mário Branco também ele escreveu grandes canções de protesto quando viveu exilado em Paris. Aliás, a maioria das grandes canções com temáticas políticas e sociais a que se costuma chamar música de intervenção foram escritas antes do 25 de abril de1974, já lá vão 45 anos.

É estranho que os grandes músicos que antes do 25 de abril faziam canções sobre as situações políticas e sociais, não conseguiram depois manter o mesmo tom crítico.

Isto parece sugerir que há uma incompatibilidade entre viver em liberdade e a possibilidade de compor canções de críticas e de protesto sobre temas políticos e sociais.

Se for necessário haver repressão e pobreza extrema para que surjam novas músicas de forte conteúdo político e social, prefiro ficar sem a música do que perder a  liberdade que me permite escrever estas ideias sem medo de que alguém me bata à porta por causa disso.

Havendo necessidade de as pessoas passarem pessoalmente pelos problemas para conseguir escrever ou cantar sobre eles, parece que a atual geração que escreve canções terá tido como maiores dificuldades na vida as paixões e os amores mais ou menos sofridos, coisas que acontecem a todos, pois sobre estes temas  parece não se esgotar a inspiração seja qual for o género musical.

É caso para dizer “vira o disco e toca o mesmo”.

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