Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Protestam mas não têm soluções...

A passagem de Greta Thunberg por Portugal provocou um onda de reações e comentários que vale a pena reter. A título de exemplo retirei do Jornal Expresso de dia 7 de dezembro duas citações de artigos escritos por pessoas que escrevem naquele jornal todas as semanas.
O professor de economia João Duque escreve: “O dramático apelo de Greta Thunberg parece ter eco na sala em que vivemos. Mas não dá qualquer resposta”.
Henrique Monteiro jornalista há bastantes anos naquele jornal, por sua vez, diz que: “Greta mobiliza a juventude e demonstra que todas as grandes causas atuais se resolvem globalmente e não por critérios de estreito nacionalismo. E além disso? Pouco mais penso eu”.
Ambas as citações, retiradas da imprensa séria e não das redes sociais, dizem no essencial que o papel de Greta Thunberg é muito giro, mas é inconsequente porque ela não apresenta soluções para a emergência climática que o mundo enfrenta.
Em primeiro lugar não deixa de ser curioso que pessoas adultas que, desde há anos, têm o poder de escrever num jornal como Expresso, venham pedir a uma jovem de 16 anos que tenha as soluções para os problemas que a geração deles tem vindo a criar.
Não me lembro de nenhum movimento social de natureza contestatária, liderado por jovens ou menos jovens, que tenha avançado com as soluções para os problemas antes de começar os protestos.
Ainda hoje se olha para o Maio de 1968 em França como o motor de uma grande transformação social, mas não consta que os jovens tivessem soluções previamente desenhadas em algum laboratório quando começaram as greves e os protestos.
Estes ilustres cidadãos são uma pequena parte de um coro que tenta desvalorizar o movimento dos jovens pela urgência de darmos atenção ao clima e às consequências que a atividade humana tem sobre o meio ambiente, dizendo que são inconscientes, que não compreendem a complexidade e não têm soluções para os problemas.
Ainda bem que os jovens não têm as soluções. Aos jovens compete contestar e aos adultos que têm poder compete encontrar as soluções ou sair do caminho.
Desvalorizar as razões que os jovens têm para contestar por não terem soluções para os problemas parece-me ser exercício intelectualmente pouco razoável.
O facto de ser um pouco autista, e por isso poder olhar para os problemas de um modo mais linear, terá permitido à jovem Greta avançar com a sua greve às aulas e tudo o que se seguiu sem se sentir condicionada pela complexidade dos problemas e da sua situação pessoal.
Ela sofre de uma doença que condiciona a forma como pensa e como olha para o mundo, o que também é usado para desvalorizar os seus atos, mas ainda bem que há alguém que diz as coisas de forma simples e direta.
Aqueles que criticam Greta pelas suas limitações na forma de pensar, se olharem com o mínimo de atenção para o pensamento e os discursos dos líderes do mundo e das elites, seguramente, verão que não são mais abertos, mais flexíveis, nem mais adequados ao que são os factos confirmados pela ciência ou pela simples observação.
Greta já fez um enorme favor à humanidade ao afirmar alto e de uma forma que foi ouvida em todo o mundo que o discurso de Trump e das elites económicas em geral é o discurso de uma geração de egoístas que vivem preocupados com o seu conforto e os seus lucros ainda que isso seja obtido à custa da vida e do futuro dos outros.
Caros João Duque, Henrique Monteiro e companheiros ao escreverem o que escreveram, enquanto adultos experientes e sábios obrigaram-se, pela lógica, a aplicar a vós próprios a exigência que colocam à jovem Greta Tunberg, que tem apenas 16 anos de idade e é autista.
A meu ver, obrigaram-se a que cada vez que nos Vossos artigos apontarem uma problema político, económico ou social tenham de apresentar em anexo a respetiva solução.
Greta fez algo grande e muito importante para que a humanidade comece a encarar o seu futuro com cuidado. Se cada um dos outros seres humanos fizer algo pequenino há uma grande probabilidade de melhorarmos as coisas.
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