Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Manter para requalificar menos

Requalificar é um dos verbos mais ouvidos nos tempos que correm.

Requalificar edifícios e espaços públicos tem vindo a tornar-se uma atividade muito apreciada pelos nossos autarcas, sendo que isso significa, a maioria das vezes, desfazer o que há para fazer novo.

Por alguma razão estranha requalificar é muito mais interessante do que cuidar e manter.

Eu preferia ouvir os autarcas e candidatos falarem mais em manutenção e menos em requalificação pois, regra geral, isso implica gastar mais dinheiro em projetos e obras que uma manutenção cuidadosa tornaria desnecessários.

Um exemplo paradigmático aconteceu com as escolas que foram construídas há 30 anos, muitas vezes com materiais de menor qualidade e que durante estes anos nunca foram pintadas, não tiveram portas ou janelas novas, nem sequer uma revisão dos telhados, já para não falar da reparação das vedações ou do arranjo dos jardins

Este abandono permitiu aos engenheiros e arquitetos e  a todo o loby da construção dizerem que era necessário fazer uma requalificação.

Na verdade se ao longos dos 30 anos de vida das velhas escolas tivesse sido investido na sua manutenção um décimo do que custaram os novos edifícios, muito provavelmente, não teríamos chegado ao ponto de ser necessário demoli-las.

Esperamos que a moda de demolir para fazer novo dê lugar a um cuidado regular com os edifícios e os espaços que temos.

Um exemplo desta cultura é o que se passa com a linha do Vale do Vouga. Desde há anos que ouço falar na sua requalificação para a transformar numa ecopista moderna.

Acontece que enquanto não surge essa moderna ecopista, em muitos troços, não se limpam as bermas nem se cortam as silvas que crescem dos lados e já tocam umas nas outras.

Como estamos à espera da ecopista parte-se do princípio que não vale a pena cuidar de conduzir as águas das chuvas, que no inverno inundam vários troços, ou passar uma máquina a limpar as pedras que se soltam e os detritos vegetais que crescem ou caem das árvores.

Mesmo sem termos uma ecopista moderna poderíamos, com um custo razoável, ter um espaço em condições de ser usufruído pelas pessoas para as suas caminhadas, corridas ou passeios de bicicletas.

Esta história é comparável a uma situação em que tendo fome decidimos só comer quando nos derem lagosta.

Importa lembrar que as obras de requalificação se não tiverem manutenção vão precisar de uma nova requalificação dentro e poucos anos.

Isso é verdade para as escolas da Parque Escolar e para a futura ecopista que se não tiver uma limpeza constante ao fim de cinco anos estará e intransitável e tomada pelas silvas e mimosas.

Um outro exemplo, a uma escala mais pequena, são os passeios de algumas das ruas da Zona Industrial de Oliveira de Frades que depois de construídos nunca foram limpos e hoje já estão tomados por silvas e outra vegetação que os torna intransitáveis.

Os centros das vilas de Vouzela e Oliveira estão a ser objeto de obras de requalificação, mas se a estas obras não se seguirem cuidados de limpeza e manutenção, daqui a poucos anos estaremos a discutir a necessidade de uma nova requalificação.

De facto esta falta de empenho na manutenção não é exclusiva dos nossos autarcas, basta pensar na dificuldade, que frequentemente, é conseguir o acordo de um condomínio para se fazer a pintura do prédio.

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