Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
A questão do valor e da utilidade
Em diversas situações parece prevalecer a ideia de que o valor de uma pessoa, um objeto, uma planta ou animal é equivalente à sua utilidade. Se tem utilidade tem valor se for inútil não vale nada.
Esta equivalência coloca a necessidade de pensarmos no valor que atribuímos às pessoas, animais, plantas e coisas independentemente da sua utilidade direta.
Em português o termo “inválido” tem sido usado para designar as pessoas que não podem trabalhar. A título de exemplo referira-se que ainda existe a Associação Inválidos do Comércio fundada em 1929, que faz um trabalho social muito relevante e que, muito bem, mantém o nome original e que, certamente, não teria então a conotação negativa que hoje se lhe pode atribuir.
Este sentido ainda está presente na legislação atual, que atribui a quem, antes da idade legal de reforma, fica incapacitado para o trabalho uma reforma por invalidez.
Assim, a ideia de que as pessoas que não produzem são inválidas ou menos válidas do que as outras continua arreigada no senso comum. Aliás, em castelhano até há pouco tempo o termo usado para designar uma pessoa com deficiência era “menos válido”.
A discussão que teremos de fazer é se o valor de cada um de nós deriva da nossa natureza humana ou da nossa utilidade. Se fôssemos capazes de reconhecer que todas as pessoas, têm o mesmo valor, independentemente da sua utilidade, daríamos um passo importantíssimo para uma sociedade mais justa.
Não por acaso, um dos fundamentos do discurso da extrema direita é a crença de que as pessoas não têm todas o mesmo valor. A ideia base é que “nós” somos superiores e melhores do que os outros
O presidente Trump ao decidir retirar as tropas americanas que protegiam os curdos na Síria e não retirar as tropas que protegiam os poços de petróleo, porque isso, na sua compreensão, é o que tem valor/utilidade para os Estados Unidos, acaba de fazer a demonstração de onde esta ligação entre o valor e a utilidade nos pode levar.
Se o nosso valor for um atributo inerente à nossa natureza humana valemos todos o mesmo e por isso merecemos todos o mesmo. Pelo contrário, aceitando que há uma relação entre o valor e a utilidade estaremos a legitimar que, um dia, alguém decida que qualquer robot vale mais do que um trabalhador e imensamente mais do que uma pessoa improdutiva.
Esta nossa tendência para fazermos a atribuição do valor em função da utilidade, aplica-se também à natureza e aos animais.
Na natureza há árvores que a que não reconhecemos utilidade e temos vindo a destruir de forma sistemática ao mesmo tempo que enchemos os campos de eucaliptos que entre outras coisas servem para fazer o papel em que a Gazeta da Beira é impressa. A mesma situação se coloca em relação aos animais.
É muito revelador que neste ano de 2019 esteja na agenda política a atribuição de um estatuto especial aos animais de companhia. Talvez, o facto das nossas relações com as pessoas, os animais e a natureza em geral serem baseadas na utilidade seja uma das razões para que haja tantas pessoas com dificuldade em ter companhia.
A espécie humana, porque tem consciência de si, dos outros e do meio circundante e porque desenvolveu capacidades que lhe permitem uma interação dominante com os outros componentes do meio ambiente tende a esquecer que faz parte desse mesmo sistema.
A nossa relação com os animais e as plantas está inquinada pela dificuldade em compreendermos a nossa posição neste mundo, pois, entre outras coisas, esquecemos que somos animais e só conseguimos alimentar-nos comendo animais ou plantas.
A verdade é que hoje compramos a comida, seja carne, peixe ou vegetais já embalados e, por vezes, nem temos consciência de que dentro das embalagens estão plantas iguais às que crescem na nossa horta ou pedaços de animais.
Reconhecer que só existimos porque existem plantas e animais que sem eles não sobrevivemos levar-nos-ia a assumir outro tipo de cuidados para com o ambiente.
Mário Pereira – Novembro 2019
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