Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

É fácil da pobreza quando se é rico

Ricardo Reis, professor de economia, escreveu no Expresso da semana passada que “o  resultado do neoliberalismo foi o maior declínio da pobreza da história mundial”.

Concordamos que, apesar de ainda haver demasiados pobres, milhões de pessoas deixaram de ser extremamente pobres e passaram a ser um pouco menos pobres;  vivendo agora um pouco acima do limiar da sobrevivência.

Atribuir esta evolução às reformas neoliberais impostas aos países pobres pelo FMI e outros organismos internacionais é que me parece ser claramente abusivo.

A primeira causa para que haja hoje menos pobres é o facto de ter aumentado muito a riqueza que é produzida no mundo.

As leis e a organização das sociedades têm, naturalmente, algo a ver com a diminuição da pobreza, mas se não fossem os avanços tecnológicos ocorridos nas últimas décadas e o aumento da produção de bens o número de pobres não teria diminuído ou talvez tivesse diminuído pelo aumento das mortes devidas à fome.

Uma vez que há riqueza suficiente para isso, mérito teria sido acabar com a pobreza, mas o resultado mais visível do neoliberalismo foi uma enorme acumulação de riqueza por um pequeníssimo grupo de pessoas, enquanto para os pobres ficaram as sobras, ainda que isso possa ser mais, do que havia há 200 anos na mesa dos ricos.

Uma caraterística dos crentes  fanáticos de qualquer doutrina é atribuir todas as coisas boas que acontecem a essa doutrina.

O artigo do professor  Ricardo Reis pretendia ser sobre factos, mas faltou-lhe dizer que na China, país que retirou o maior número de pessoas da pobreza, só com muita boa vontade se poderá chamar de neoliberal ao sistema económico.

Nos Estados Unidos, terra natal dos neoliberais, haverá cerca de 40 000 000 de pessoas, cerca de 10% da população, que não conseguem fazer face a uma despesa inesperada de 400 dólares.

Esta situação significa não poder arranjar o carro ou o aquecimento da casa se avariarem ou não poder pagar os medicamentos de que precisa.  Ainda que estas pessoas disponham de um rendimento maior do que uma pessoa remediada em Moçambique ou na Guiné Bissau, não deixam de viver no limiar da pobreza.

A política deve contribuir para que as pessoas possam produzir e trocar os bens que produzem com fluidez, mas deve também cuidar  que não se criam desigualdade aberrantes. Neste particular  os neoliberais falharam estrondosamente.

Dizer que o aumento da produção de riqueza se deve a leis que facilitam os despedimentos, que permitem às grandes empresas não pagar impostos ou permitem aos ricos esconder o seu dinheiro em paraísos fiscais é, seguramente, uma análise muito parcial e limitada de uma realidade complexa.

Não é um grande feito que haja hoje mais gente a viver acima do limiar da sobrevivência, mas que continuam a ser e a sentirem-se pobres.

O desafio para os neoliberais, para os socialistas, para os verdes e todos os democratas é o fim das desigualdades aberrantes. Enquanto elas persistirem ninguém poderá orgulhar-se do que tem feito.

Ninguém escolhe ser pobre. Aliás, escolher ser pobre é uma opção que só os ricos podem fazer.

O Prémio Nobel da Economia de 2019 foi atribuído aos economistas Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo que escreveram um livro editado em Portugal com o título “A Economia dos Pobres” onde escrevem sobre as armadilhas da pobreza e as dificuldades dos pobres em deixarem de ser pobres. Algumas dessas dificuldades são criadas pelas políticas neoliberais.

Mário Pereira

Outubro 2019

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