Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Falar em nome do povo
Alguns dias antes das eleições ouvia na televisão um painel de comentadores a falarem sobre a campanha eleitoral e despertou-me a atenção o facto de usarem expressões como:“António Costa não consegui explicar ….. à opinião pública”, “Rui Rio não consegue chegar às pessoas….”, etc, etc…
Falavam como se representassem a opinião do povo.
Com demasiada frequência, os comentadores e jornalistas assumem que são eles e não os políticos quem representa o verdadeiro pensamento do povo.
Não deixa de ser estranho que pessoas que nunca foram a eleições se considerem mais capacitadas para representar o povo, que aqueles que o povo elegeu.
Esta questão ganhou uma nova relevância, entre os meus pensamentos, quando, na noite das eleições, ouvi um dirigente do Partido Socialista (Pedro Nuno Santos) ser interrogado por um grupo de jornalistas, que queriam que ele dissesse qual a estratégia do PS para o futuro governo.
Ele foi dizendo que essa questão não poderia ser respondida às 10 horas da noite de domingo e que, dependendo dos resultados finais, só no fim da noite ou nos próximos dias se poderá falar sobre o futuro.
Uma jornalista, à falta de outros argumentos, tentou pressioná-lo dizendo-lhe que as pessoas querem saber o que vai acontecer. Ao que o ele retorquiu questionando-a: São as pessoas ou a Sra quem quer saber?
Eu gosto mais de ouvir as pessoas assumirem as suas opiniões e crenças em vez de se expressarem, de forma vaga, em nome de uma opinião pública que não existe. Talvez, por isso tenho tendência a preferir ouvir os comentadores que dizem: “eu penso…., eu acho …, eu não compreendo o que ele disse…., etc”, mesmo quando discordo completamente do que dizem.
Quando pensamos porque razão os meios de comunicação tradicional têm vindo a perder alguma relevância (não são apenas os políticos) talvez uma delas seja a adoção daquilo a que agora se chama o interesse do público como justificação para contarem histórias mal contadas ou para não irem ao fundo das notícias ou mesmo para alguns atropelos à ética jornalística.
Acredito que o jornalismo seria mais interessante se os jornalistas se preocupassem em contar boas histórias, em dar notícias bem fundamentadas e não se arvorassem em representantes da opinião do povo.
Prefiro os jornalistas que assumem as suas posições sobre a economia, a política ou o ambiente àqueles que se escudam no que dizem ser o pensamento do povo, que é bom se coincidir com o do próprio, quando isso não acontece é porque as pessoas estão mal informadas ou são vítimas da manipulação dos políticos.
Embora esteja muito difundida a ideia de que qualquer um pode ser político, os factos mostram que a política continua a ser uma atividade muito difícil.
Que me lembre apenas duas pessoas em Portugal conseguiram passar do jornalismo para a política com sucesso: o Presidente Marcelo e Paulo Portas, embora em ambos os casos o jornalismo nunca tenha deixado de ser um meio para intervir na política.
No sentido inverso, vemos pessoas que na política nunca passaram da mediania a desembaraçarem-se como comentadores da política ou até do futebol.
Embora se continue a dizer que os políticos têm cada vez menos capacidades a verdade é que não nos lembramos de juízes, procuradores ou gestores famosos que tendo tentado incursões na política se tenham destacado entre os demais.
No dia 6 o povo falou e disse o que quer. Esperamos que nos próximos dias os vários partidos se organizem para que possamos ter um governo capaz.
Mas, convém não termos demasiada pressa. É preferível demorarem o tempo que for necessário para conseguirem um bom acordo do que depois andarem todos os dias às cabeçadas uns aos outros.
Mário Pereira Outubro 2019
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