Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Um direito torto

Numa das suas crónicas no jornal Expresso, o antigo ministro da economia e professor da dita, Daniel Bessa discorre sobre os problemas do interior. Coisa que ele e outros comentadores se lembram de fazer quando lhes dá jeito ou quando isso está na moda.
Algumas das coisas que ele diz são tão óbvias, que o que podemos estranhar é que não tenham merecido espaço nas centenas de crónicas que já escreveu no Expresso e noutros jornais, nem lhe tenham merecido especial atenção quando foi ministro.
Desta vez ao tentar apresentar uma inovação, o Sr. Professor vem como uma ideia engraçada.
O destaque da sua crónica diz que: “O Estado não reconhece ao interior o direito ao acesso ao gás natural”. Traduzindo isso para linguagem que se entenda no interior, parece-me que ele quer dizer que: “o Estado não reconhece às empresas petrolíferas o direito a venderem gás natural no interior”
Talvez o Sr. Professor não saiba que na Holanda, que é um grande produtor de gás natural, existem leis que obrigam várias indústrias a deixar de consumir gás natural nos próximos anos.
A título de exemplo, posso referir as estufas de flores, legumes e plantas, que são uma enorme indústria na Holanda, que estão obrigadas o deixar de consumir gás natural durante o próximo ano.
Conheço o caso de uma empresa gigantesca de estufas que fez um furo geotérmico que terá mais de 1000m de profundidade, o qual lhe permite ter água à temperatura de 60 graus, para fazer o aquecimento das estufas deixando com isso de queimar gás natural.
Além disso, as novas casas já não têm ligação de gás natural, mesmo quando ele existe na rua ao lado, deixando de usar gás para o aquecimento central, que era o habitual na Holanda.
Quando um país, que se distingue pela eficiência da sua economia e por saber fazer contas e além disso é produtor de gás natural, opta por uma política agressiva de redução do consumo do gás natural, fico preocupado quando vejo uma mente brilhante em Portugal vir defender o “direito” do interior a queimar gás natural.
Na Holanda como alternativa ao gás natural está a ser usado o recurso à geotermia e a eletricidade, nomeadamente painéis solares.
Nas habitações o objetivo é ter casas neutras em termos de emissões de CO2. Isto quer, basicamente, dizer que cada casa tem de produzir tanta energia como a que consome.
Para isso os padrões de isolamento foram reforçados e mesmo moradias uni-familiares têm furos geotérmicos de dezenas de metros, que permitem ter água a uma temperatura suficiente para assegurar uma temperatura constante dentro de casa, ao mesmo tempo que os painéis solares para produção de eletricidade se tornaram parte do equipamento das casas.
Seria interessante termos ter energia mais barata, mas não o conseguiremos andando para atrás.
Defender que a solução para isso passe pelo alargamento da rede do gás natural é ir contra os ventos do tempo. É como o Trump achar que a solução para a produção de eletricidade é o regresso às centrais a carvão.
Habitando no interior agradeço a preocupação do Sr. Professor, mas agradeceria mais se tivesse a certeza que ele nunca ganhou dinheiro prestando serviços a empresas com interesse na venda do gás natural ou do petróleo.
Precisamos de energia barata mas ela terá que vir de soluções alinhadas com as atuais preocupações ambientais e não com modelos que estão a ser abandonado pelos países mais desenvolvidos.
É óbvio também que quando o Estado cria ou serviços que apenas chegam a algumas regiões deveriam existir mecanismos de compensação para quem fica sem acesso.
Setembro 2019
Comentários recentes