Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Propostas para perder eleições

Quando estava a preparar-me para começar esta crónica ouvi na televisão a líder do Bloco de Esquerda afirmar que o seu programa eleitoral tinha como ideias fortes o combate à emergência climática e o aumento do investimento público, para níveis de antes da crise, como o duplo objetivo de melhorar os serviços e dinamizar a economia.

De certo modo isto é, como diz o ditado popular, “querer sol na eira e chuva no nabal”

A grande questão ecológica não é apenas a poluição. Essa é grave mas poderia ser controlada com boa vontade e algum esforço.

O que não tem solução é o facto de consumirmos, em cada ano, o dobro dos recursos gerados pelo planeta Terra onde vivemos e de onde não podemos, pelo menos por enquanto, sair. Segundo quem estuda estas questões, antes do final de junho, já tínhamos consumido os recursos do ano todo.

O problema ainda não é crítico, porque durante milhões de anos a Terra acumulou recursos, sob a forma de petróleo, carvão e recursos biológicos que proporcionaram aos humanos as condições para se desenvolverem.

A emergência climática, que já sentimos no corpo em 2017, só poderá ser enfrentada com a alteração de dois dos paradigmas que dominam o pensamento político, social e económico.

Se quisermos os nossos descendentes ainda possam viver na Terra daqui a algumas centenas ou milhares de anos, teremos de equilibrar o nosso consumo com a capacidade do nosso planeta, de que dependem também todos os outros animais e plantas.

O grande desafio para os partidos políticos, nomeadamente os de esquerda, que se reclamam de uma consciência ecológica é inventar novas políticas que não dependam do crescimento económico e se possível nos permitam viver em harmonia com menos consumo.

Consumir menos passa necessariamente por coisas como:

– Não trocar de carro ou de telemóvel só porque há um modelo mais giro.

– Comer menos carne pois além de problemas da poluição local a criação de pastagens e a produção de cereais leva à destruição das florestas e zonas naturais necessárias aos outros animais que coabitam na Terra.

– Usar a roupa enquanto ela cumprir a sua função.

– Usar menos cremes, menos champô, gel, etc…

– Talvez também os adultos possam seguir os conselhos dos pediatras que recomendam que os bebés tomem banho só dia sim dia não.

Tudo isto são coisas boas para o clima, mas péssimas para a economia, tal como ela está organizada.

O dogma central dos economistas e gestores é o crescimento do PIB e da economia. Quando as estatísticas dizem que a economia não está a crescer a vida dos governos complica-se, ao ponto de muitos terem caído, devido às críticas que se seguiram a essas estatísticas.

Uma das consequências deste crescimento é a maior disponibilidade de bens de consumo, mas a outra invisível a curto prazo é a destruição dos recursos naturais.

Agora que estamos a aproximar-nos das eleições seria interessante perguntar aos nossos candidatos como é que eles pensam resolver estes problemas.

Um outro problema ecológico é a sobre população. Contudo não há partido político que não proponha incentivos à natalidade.

Uma hipótese alternativa seria criar incentivos ao acolhimento de pessoas que vivem em zonas sobrepovoadas ou onde a vida é uma aventura perigosa. Podíamos resolver o nosso problema e também o dessas pessoas.

Estas ideias são tão estranhas ao nosso pensamento que se um partido quiser ter a certeza que perde as eleições, bastar-lhe-á dizer que quer estabilizar ou reduzir o PIB e promover o acolhimento de migrantes para suprir a falta de pessoas em Portugal.

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