Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Qualidades

As rotundas de Portugal começam a encher-se de cartazes alusivos às eleições autárquicas, mas por enquanto, como ainda não é possível apelar diretamente ao voto, os partidos e candidatos têm vindo a apresentar-se com cartazes exibindo as suas qualidades.

Os cartazes com fotografias, bem produzidas, a maioria das vezes de senhores, têm legendas como: rigor, competência, honestidade e qualidades afins.

A minha questão é que estas qualidades não deveriam ser anunciadas como um apelo ao voto naquela pessoa, pois parto do princípio que se alguém tem o apoio de um partido político ou de um grupo de cidadãos deve ter essas qualidades em dose adequada ao cargo que se propõe ocupar.

Fazer do anúncio destas qualidades o ponto de partida de um campanha deixa uma crítica implícita aos outros autarcas de modo que, para serem completos, estes cartazes deviam acrescentar um comentário do tipo “em mim encontrará a competência, honestidade e o rigor que falta aos outros”.

Fazer alarde destas qualidades é mais ou menos o mesmo que dizer tenho dois braços e duas pernas. A notícia não é uma pessoa ter, pois espera-se que todos tenham dois braços e duas pernas . Notícia é quando alguém não tem.

Estes cartazes têm ainda o azar de me lembrarem aquele senhor que dizia que para alguém ser mais honesto do que ele teria de nascer duas vezes, e isso basta para me provocarem azia.

César dizer disse à mulher que não lhe bastava ser séria também tinha de parecer.

A estes candidatos não basta serem sérios e honestos também convém que o pareçam, mas isso não é a mesma coisa do que publicitá-lo.

Também me parece que uma discussão sobre as qualidades pessoais dos candidatos não seja um bom tema de campanha e será sempre uma discussão perigosa em política.

Se a eleição fosse para escolher o mais rápido, o mais forte, o capaz de comer mais ovos cozidos ou outra coisa em torno da qual fosse possível organizar uma competição objetiva a discussão faria sentido, mas quando discutimos qualidades e valores morais que compõem o carácter das pessoas acho desadequado fazer disso alarde.

Entrando nesta discussão sobre as qualidades dos futuros autarcas, gostaria de ver os candidatos dos concelhos de Lafões juntarem ao rigor, competência, honestidade outras qualidades que têm escasseado na nossa região:

– Humildade para perceberem que o seu concelho é uma coisa pequenina e que as pessoas que viajam nos aviões que todos dias vemos passar por cima de nós quando olham para baixo veem apenas uma mancha verde ou o negro dos incêndios com umas casas dispersas e de qualquer, modo, nunca distinguirão os limites dos diferentes concelhos.

– Capacidade para trabalhar em conjunto com os municípios vizinhos.

– Capacidade para mobilizar as organizações da comunidade e as pessoas que ainda não desistiram de viver aqui.

– Um espírito apaziguador, nomeadamente em Oliveira de Frades, onde depois de tantos anos de fricções e pequenas quezílias o que precisamos é mesmo de paz e harmonia.

O presidente Trump acabou de assumir que vê o mundo como um lugar em que as pessoas, as empresas e as nações competem umas com as outras de forma a defenderem os seus interesses, ainda que para isso que tenham que prejudicar os outros.

Não basta dizer que ele é este e aquele. Precisamos de ganhar consciência de que se queremos um mundo mais solidário e mais pacífico temos que o construir a partir do nosso território.

Não há pessoas perfeitas e os que vão dirigir os municípios serão tão imperfeitos como os seus munícipes por isso espero apenas que os candidatos não venham com a atitude de quem tem  soluções para os nossos problemas, mas venham dispostos a motivar as pessoas e as organizações em que elas se envolvem para participarem num esforço coletivo.

Mário Pereira – Junho de 2017

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