Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Uma questão de família

Está em curso um debate muito interessante sobre as relações familiares dos políticos e que deve ser continuado pois é ilustrativo da pobreza moral e ética dos nossos dirigentes, mas também da muita hipocrisia que anda por aí.

Nesta questão os políticos e os jornalistas fazem-me lembrar os gestores do BES, do BPN da CGD e do Banco de Portugal, andavam por lá mas nunca viram nada e não se lembram de nada.

A importância das relações familiares não é uma questão exclusiva da política nem da democracia. Durante o estado novo eram meia dúzia as famílias que, com a proteção do estado, controlavam tudo incluindo a economia.

Aconselharia os jornalistas a que vão verificar as listas dos professores das nossas ilustres faculdades de medicina, economia ou de direito, durante o século XX, e depois digam-nos se a semelhança dos nomes dos catedráticos é mera coincidência.

Podem também ir ao mundo empresarial analisar as ligações familiares que existem nas grandes empresas, públicas e privadas.

Pode ser uma alucinação, mas tenho a ideia de, há alguns anos, ter lido um artigo, que sintetizava um estudo universitário sobre o jornalismo, onde se dizia que quase metade dos jornalistas tinha entrado na profissão através de conhecimentos pessoais. Será?

Esta discussão é importante e interessa não deixar que todos se esqueçam quando passarem as eleições.

Estou com aqueles que dizem que é um problema cultural e não uma questão legal.

Em primeiro lugar porque, do mesmo modo, que quem nasce pobre não tem culpa disso, quem quem nasce filho ou sobrinho de ministro também não e se for competente não deve, por isso, ser impedido de trabalhar para a comunidade.

A questão é saber se aquela pessoa é a melhor para a função ou se é nomeada por ter as melhores relações. Esta é a questão que interessa seja na política, nos cargos públicos ou mesmo nas empresas.

Reconheça-se que se alguém é nomeado ministro ou secretário de estado precisa de formar um gabinete em poucos dias e para isso terá sempre de recorrer a pessoas que conhece ou das relações das pessoas que conhece.

A alternativa seria o estado contratar empresas de  recrutamento de talentos para encontrar as pessoas mais capazes, mas seria enorme a probabilidade do  ministro ou o secretário de estado já não o serem quando a empresa encontrasse as pessoas certas.

Seguramente, muitas pessoas dirão que este é um problema da política de Lisboa. Seria bom que fosse. Também por aqui se deu o feliz acaso de algumas famílias serem abençoadas com especiais dons e competências que as habilitam a ocupar cargos municipais.

Eu não sou especialista no assunto, mas não é, particularmente, difícil encontrar funcionários municipais com ligações familiares a antigos e atuais autarcas.

É muito importante que esta conversa se transforme num debate continuado e profundo, pois faz-me impressão ouvir algumas pessoas que agora se armam em moralistas. Alguns casos são mesmo miseráveis pela falta de memória e de coerência que revelam.

Ouvir Cavaco Silva dizer que nunca nomeou familiares de ministros ou dele próprio é ridículo. A não ser que ele pense que só há duas gerações em Portugal. Os que ainda não eram nascidos quando ele foi primeiro-ministro e os que já perderam a memória.

É triste perceber que o Marques Mendes já se esqueceu do colega do governo que arranjou o emprego para a sua mulher. Há gente mesmo mal agradecida.

O Vital Moreira também já se esqueceu que foi cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu e que a sua mulher é a agora a segunda na lista do PS.

Se o professor Marcelo pensa que ser filho e afilhado de quem foi não o ajudou chegar a vice diretor do jornal expresso e a deputado com 20 e poucos anos, é porque,  apesar dos milhares de selfies que tem no seu telemóvel, ainda não percebeu nada da vida do povo.

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