Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Protestos

Estamos a chegar ao final de 2018 com um tempo frio e húmido como é normal, mas, enquanto isso, a contestação social começa a atingir uma temperatura pouco habitual.
Bem vistas as coisas todos nós teremos razões para nos queixarmos e protestarmos e o mais fácil é atribuirmos a culpa de tudo ao governo.
Contudo, se olharmos com atenção veremos que tem havido um esforço sistemático de alguns grupos sociais para destruir o Estado e os serviços públicos, porque isso é do seu interesse, ao mesmo tempo que nos convencem que fazem isso para nosso bem, uma vez que todo o mal seria culpa dos governos.
A título de exemplo, basta olhar para o preço dos medicamentos. Todos achamos que são caros por culpa dos governos, mas ninguém fala dos lucros da indústria farmacêutica.
Vivemos num equilíbrio instável entre o desejo de pagar poucos impostos e a necessidade de ter bons serviços públicos, que são indispensáveis aos pobres e remediados. É por isso, aliás, que é preciso defendê-los.
Os muito ricos não têm necessidade dos serviços públicos. Não precisam de ir ao centro de saúde ou aos hospitais públicos, os seus filhos não frequentam as escolas do bairro ou as universidades públicas, nem andam de transporte públicos e até a polícia é dispensável pois podem contratar verdadeiros exércitos privados.
Os muito ricos tendem cada vez mais a olhar para os remediados e os pobres como clientes ou empregados das suas empresas e perderam o sentido de pertença à mesma comunidade.
Esta separação é tão grande que, hoje, se pode falar em capitalismo sem rosto humano.
Apesar de serem apenas 1% das pessoas, este grupo influencia 99% das política dos governos, como provam as sucessivas reduções dos seus impostos. Trump, já este ano, fez isso na América e Bolsonaro prometeu fazê-lo no Brasil. Talvez por isso são tão apoiados pelos ricos.
Em França, Macron também quis reduzir os impostos sobre as grandes fortunas e aumentar o imposto sobre o gasóleo, mas aí o povo protestou.
Assegurar condições adequadas para os serviços públicos e os seus trabalhadores exige o reforço da capacidade reguladora do Estado e uma política fiscal que faça os ricos e as grandes empresas contribuírem de forma justa para as despesa da comunidade.
Ser de esquerda hoje não é apenas defender um maior peso do estado na economia ou melhores salários para os funcionários públicos.
O PS, o BE e o PC deixaram que se criasse a ideia de que a missão principal do atual governo era a reposição dos rendimentos dos funcionários públicos, pensionistas e outras pessoas que vivem de apoios públicos.
Enquanto isso, para os trabalhadores do setor privado em geral, embora a situação tenha melhorado, ficou a ideia que isso foi consequência da lei da oferta e da procura e não da política ou da atividade reguladora do Estado.
Este, do meu ponto de vista, terá sido o maior falhanço do governo e dos partidos de esquerda que o apoiam.
O facto óbvio da riqueza não ser distribuída de forma justa e equitativa é o grande motivo para todos os protestos.
Espero que os “protestantes” dirijam o seu protesto contra o alvo certo e não se deixem instrumentalizar por quem apenas está interessado em enfraquecer o estado e os serviços públicos.
Quando vemos o CDS e o PSD apoiarem greves é natural pensar que alguma coisa está errada.
Esta seria uma boa altura para os sindicatos, com poder para organizar greves, lutarem pelos direitos dos mais pobres e não apenas pelos interesses dos seus filiados.
Este egoísmo tem sido aproveitado pelos muito ricos para levarem a água ao seu moinho criando divisões e hierarquias entre os pobres, os que são um pouco menos pobres e os remediados.
Hoje não basta um novo governo ou novas políticas. É também necessária uma nova consciência dos problemas.
Dezembro 2018 Mário Pereira
Comentários recentes