Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

A importância de ter voz

Poderia escrever sobre o Orçamento de Estado e a importância de ter um défice muito baixo, mas o grande tema do debate foi o IVA das touradas.

É estranho para nós que, tal como dois terços do país, não temos touros nem touradas que a questão tenha merecido a atenção que a comunicação social e os partidos lhe deram.

Não faço ideia do preço dos bilhetes, mas a redução do IVA de 23 para 6% não deverá dar para o pessoal comer uma bifana e beber uma cerveja quando vai à tourada.

O público que vai é aficionado e por isso não vai ou deixa de ir por um desconto e, seguramente, também não é esse desconto que vai atrair novos espetadores.

Enquanto decorria esse alarido, não se ouviu ninguém a gritar contra a desigualdade que vai ser criada com a subsidiação pelo estado dos passes sociais em Lisboa e no Porto.

O primeiro-ministro, porque terá percebido a iniquidade da situação, prometeu que a medida será alargada ao resto do país, não disse é quando e, na verdade, ainda ninguém sabe como é que isso poderá será feito.

Este episódio é ilustrativo de quais são os assuntos que merecem a atenção das pessoas que têm voz na comunicação social e com isso conseguem ser ouvidas pelos políticos e influenciar as decisões que eles tomam.

Acontece que existem muitas pessoas influentes que são aficionadas pelas touradas que  têm acesso à comunicação social e e aos deputados.

Manuel Alegre grita a favor das touradas e logo os jornalistas correm a ouvir e a repetir o que ele diz.

O poder deste pequeno grupo gerou um tal alarido em torno da questão, que quase provocou uma crise no PS e no governo.

Quando nos lamentamos do interior não ser ouvido e não ter peso nas decisões do governo ou do parlamento é disto que estamos a falar.

O país está desequilibrado, porque a maioria das pessoas vive nas grandes cidades e o conhecimento que têm do interior resulta da visita à terra dos avós, em geral, quando há festas ou de um fim de semana num dos turismos rurais recomendados pelos jornais e revistas ou pela internet.

Vêm, nos seus belos carrinhos, às festas ou passar um fim de semana e voltam espantandos com as paisagens ou a comida, mas sem fazerem ideia de quais são as reais condições de vida das pessoas mais idosas e das mais pobres que vivem nesses lugares.

Se olharmos com distanciamento as discussões políticas e na comunicação social, nos últimos anos, fica-nos a impressão que tem sido dada mais atenção aos animais de companhia do que ao interior em geral.

As tragédias dos incêndios ou da pedreira de Borba são também uma consequência da pouca atenção que a vida das pessoas no interior merece.

No correr dos dias não merece atenção de ninguém. Quando alguém de nós aparece nos jornais ou na televisão é porque aconteceu alguma desgraça.

Precisamos de atenção para os nossos dramas e vitórias do dia a dia e não apenas para as tragédias. Uma das formas de o conseguir seria que os deputados eleitos pelo interior se organizassem como um grupo focado na defesa das suas populações.

Não precisariam de fazer coisas muito espetaculares, bastaria que fizessem um almoço por mês e que organizassem regularmente audições ou debates no Parlamento.

Nunca será demais falar de coisas como a floresta, a agricultura de minifúndio, o apoio aos idosos ou dos incentivos à natalidade no interior.

Se os deputados dos vários partidos adeptos do Benfica, do Sporting ou do Futebol Clube do Porto se  juntam para almoçarem com os presidentes dos seus clubes, não vejo qual a dificuldade dos deputados de Viseu, da Guarda, de Vila Real, de Bragança, de Castelo Branco, de Beja e  por aí fora se juntarem para almoçar e planearem iniciativas de interesse para as pessoas e as terras que representam.

Dezembro de 2018 – Mário Pereira

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