Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Tempos complexos exigem soluções complexas

 

Há umas semanas, assisti a uma conferência do professor Ruben Llop, de Barcelona, onde falou dos problemas da liderança das organizações dizendo que as dificuldades resultam, em primeiro lugar, da natureza dos tempos que vivemos, que segundo ele e outros teóricos se caraterizam pela:

– Volatilidade – tudo muda rapidamente.

– Incerteza – o futuro é incerto e imprevisível.

– Complexidade – a realidade é multifacetada.

– Ambiguidade – o significado dos acontecimentos nunca é claro e muito menos único.

Estas caraterísticas fazem com que sejam cada vez menos as empresas centenárias. Hoje quando vemos uma empresa fundada no século passado sentimos que já tem uma idade respeitável.

As mudanças e a incerteza fazem com que nem os gestores nem os trabalhadores possam ter a certeza de que a sua vida vai estar ligada aquela empresa até à reforma.

As lideranças dos partidos tem vindo a mostrar dificuldades em se adaptarem a estes tempos voláteis, incertos, complexos e ambíguos, que além de outras coisas trouxeram também uma forma diferente das pessoas se relacionarem com as organizações sociais.

A volatilidade somada à incerteza, à complexidade e à ambiguidade fazem com que muitas pessoas procurem acolhimento junto de demagogos que prometem o regresso aos bons velhos tempos em que as coisas eram simples e mais previsíveis.

Esta é a caraterística comum aos discursos do Brexit, do presidente Trump ou da Frente Nacional em França, mas a complexidade não desaparece por magia e por isso ouvimos o presidente Trump dizer sobre vários assuntos: “não sabia que era tão complexo”, tal como os ingleses não contavam que fosse tão complicado sair da União Europeia.

Quando se fala da dificuldade da esquerda europeia se adaptar aos novos tempos, ela começa logo por não compreenderem nem aceitarem estas quatro caraterísticas dos tempos que vivemos: mudanças aceleradas, imprevisibilidade, complexidade e a ambiguidade.

É por isso que tivemos em Portugal reações desastradas do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista às eleições francesas, que tiveram dúvidas em apoiar um democrata contra uma fascista. Num mundo simples de oposição esquerda direita seriam os dois maus.

Uma das caraterísticas dos partidos com uma matriz comunista é a crença messiânica num futuro de leite e mel que acabará inevitavelmente por acontecer.

Esta forma de olhar o mundo não é muito diferente da perspetiva das religiões que prometem aos seus fiéis que,  no fim de um percurso eventualmente difícil, haverá um mundo de plena felicidade.

As religiões resolveram a questão remetendo esse mundo para outra dimensão da vida.

Há dias ouvi no rádio, enquanto viajava, um estudioso das religiões dizer que prefere falar de cosmovisões em vez de religiões, pois todas elas são formas das pessoas darem sentido ao mundo em que vivem.

Seria interessante que os partidos de esquerda, e votando às analogias com a religião, clarificassem a sua mundovisão: como veem o mundo, que espaço deve ter Portugal nesse mundo e como é que seria a vida de cada um de nós nesse mundo.

Seria bom que os partidos de esquerda aprendessem com a experiência de governo em que estão envolvidos e só possível agora, exatamente, porque os nossos dias são ambíguos, permitindo que a um partido apoiar o governo e fazer oposição ao mesmo tempo sem que haja escândalo.

Foi porque os tempos são complexos e ambíguos que o BE e o PCP não foram forçados a escolher entre estar no governo ou na oposição e puderam alinhar nesta solução complexa, ambígua, incerta e volátil.

Falta agora que comecem apresentar propostas, nomeadamente na política económica de acordo com o tempo que vivemos e que vão além das ideias simples que até agora têm sido capazes de gerar e que, infelizmente, coincidem, em demasiados aspetos com o que dizem Trump e Le Pen os expoentes máximos do pensamento linear e simplista.

 

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