Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Comércio justo à TRUMP

Continuamos a ter notícias da guerra comercial que o presidente Trump tem vindo a mover contra todo o mundo. O motivo invocado é que os tratados e as convenções do comércio internacional não são justas, querendo com isso dizer que não são, suficientemente, favoráveis aos interesses dos Estados Unidos.
Não é difícil concordar que as regras do comércio internacional não são justas, já é mais difícil concordar quais devem ser as regras de um comércio justo. Isso implica que nos entendamos sobre o que somos enquanto humanidade.
Olhando para o lado negro da nossa história encontramos uma enorme abundância de exemplos que reforçam a conceção da humanidade como conjunto de grupos meios selvagens a competirem entre si pelos recursos, mesmo que isso possa implicar a morte de outras pessoas.
Esta é a visão que tem justificado todos os tipos de guerra, que começando por questões comerciais podem, facilmente, escalar para outras guerras.
Convém não esquecer que, nos dias de hoje, uma guerra com a escala da II Guerra Mundial seria, provavelmente, o fim da humanidade.
Diferente é a ideia da humanidade como um conjunto de seres que se consideram iguais entre si e se respeitam mutuamente, porque de facto só podem nascer, crescer e prosperar ajudando-se uns aos outros.
A dificuldade é que estas duas visões coexistem em todos nós.
Quando olhamos para as pessoas que nos são próximas tendemos a olhar pela segunda perspetiva, mas quando olhamos para os que nos são distantes, não falam a nossa língua e ainda por cima podem ter outra cor da pele é fácil optarmos pela primeira.
A ideia de TRUMP é simples. Vale tudo para que o nosso grupo tire vantagem da relação com os outros.
Nessa perspetiva o que valida as relações não é a equidade ou a obtenção de vantagens mútuas. As trocas comerciais são justas se servirem os nossos interesses.
A ideia do que são tratados comerciais adequados aos interesses dos Estados Unidos, defendida por Trump, não é nova.
Quando os Estados Unidos deixaram que as Filipinas, que foram uma colónia dos Estados Unidos desde 1898 até 1934, se tornassem independentes, embora na realidade a independência só se tenha tornado efetiva em 1946 com o final da II Guerra, impuseram-lhe um tratado que ilustra bem quais, o que na sua perspetiva, devem ser as regras do comércio internacional.
Parece-me que nesta altura Donald Trump ainda não era nascido, pelo que não foi ele o arquiteto desse tratado, cujas regras eram fundamentalmente quatro:
1 – As mercadorias americanas podiam entrar nas Filipinas em quantidades ilimitadas e sem tarifas alfandegárias.
2 – As mercadorias exportadas das Filipinas para os Estados Unidos ficavam sujeitas a quotas e a taxas alfandegárias a fixar pelos Estados Unidos.
3 – As empresas americanas podiam fazer investimentos nas Filipinas com diversos privilégios.
4 – Os Estados Unidos podiam fixara a taxa de câmbio do dólar com a moeda das Filipinas.
Convém lembrar que, por esses anos, em Portugal havia muitas atividades comerciais e industriais, bem como todo o comércio com as colónias, que eram controladas por monopólios atribuídos pelo estado a algumas famílias,
Uma prova de que o mundo está melhor é haver hoje tanta gente indignada contra as tarifas do presidente Trump, que se aplicadas há 70 anos teriam constituído um grande avanço, face às regras então vigentes
Temos vistos descendentes de famílias que enriqueceram à conta das tarifas alfandegárias e dos monopólios a protestarem, e muito bem, contra as tarifas do Presidente Trump.
Ficar-lhes-ia muito bem assumirem que os seus antepassados beneficiaram direta e elas indiretamente dessas práticas.
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