Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

O mundo está a ficar perigoso

Nos anos mais recentes têm vindo a ganhar terreno algumas ideias que julgávamos já ultrapassadas pelas sociedades mais avançadas.

O populismo nacionalista, que triunfou em países como os Estados Unidos, com Trump e no Reino Unido com o Brexit, na Europa já governa na Polónia, Hungria,  Áustria e, desde há algumas semanas, na Itália.

A explicação que vai sendo dada para este fenómeno é que os políticos tradicionais governaram mal e não responderam aos anseios das sociedades. Parece-me uma explicação simples demais para  o que se está a passar.

Os tempos em que vivemos são complexos e contraditórios.

Os dados recentes sobre as redes sociais mostram que a maioria das pessoas que vivem países onde o populismo nacionalista tem vindo a triunfar está ligada uma rede social que lhes permite saber o que se passa em todo o mundo em tempo real.

Eu pensava que esse conhecimento e a possibilidade de contactar pessoas em qualquer país do mundo, somadas com a imensa quantidade de pessoas que viajam, cada dia há 8 000 000 de pessoas a apanhar um avião, iria levar a um aumento da confiança nos outros seres humanos, mas em vez disso parece ter  despertado sentimentos de medo e de fechamento.

O que se passa faz-me duvidar se nós estamos preparados para olhar para os outros humanos como companheiros ou se é da nossa natureza ver os outros como competidores e inimigos.

Um dos tópicos do discurso nacionalista é que os outros são criminosos e perigosos. As vítimas atuais deste discurso são os imigrantes vindos de países pobres .

Este discurso não é recente e persiste embora não haja nenhum estudo sério que prove que há mais probabilidade de um imigrante cometer um crime do que um natural de um dado país. Pelo contrário há estudos que mostram que a incidência da criminalidade entre os imigrantes, que chegam a um país, é inferior à incidência entre os naturais.

Talvez no ocidente tenhamos razões inconscientes para ter medo dos que chegam doutros países, pois se eles nos fizessem o que os nossos antepassados fizeram quando chegaram à terra deles a coisa ficava feia.

O discurso nacionalista e populista, nomeadamente o encarnado pelo presidente Trump, está a ter desenvolvimentos numa direção que pode vir a causar problemas sérios a toda a humanidade.

Hoje a grande ideológica da administração Trump funda-se no pressuposto que é obrigação do seu governo usar a sua força e o seu poder para obter vantagens junto dos outros países.

É esta a ideologia que está por detrás das guerras comerciais que ele desencadeou com o resto do mundo e que podem afetar negativamente todas as economias e a vida de muitas pessoas.

O seu pensamento assenta a lógica de que quem não é do nosso grupo é nosso competidor ou nosso inimigo. Esta visão da humanidade como um conjunto de grupos lutando entre si pelos recursos disponíveis, é basicamente um regresso à pré-história.

Basear as relações entre os países na força e não na cooperação cria as condições para que surjam novos conflitos e novas guerras, não apenas comerciais.

Nos anos recentes as guerras, tirando as guerras que visam diretamente o controlo dos recurso de outros países como foi o caso da guerra do Iraque, tem tido como motivo principal o incitamento ao ódio contra os que não são do nosso grupo.

Existem depoimentos impressionantes de pessoas da antiga Jugoslávia, cujas famílias conviviam à décadas com vizinhos de outras nacionalidades e que em poucas semanas de confusão começaram a matarem-se uns aos outros.

O mesmo aconteceu no Ruanda onde comunidades que viviam juntas à muitos anos, em poucos meses se mataram uns aos outros às centenas de milhares.

Estes exemplos mostram que se deixarmos que este discurso de desenvolva e avance poderemos vir a ter guerras muito sérias e sobretudo muito destrutivas, pois não há garantia de que o bom senso e a cooperação venham a prevalecer sobre a irracionalidade que também faz parte da nossa natureza.

Mário Pereira                      Junho 2018

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *