Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

“Um azar nunca vem só”

Estamos a entrar no Verão e, embora no dia em que escrevo esteja frio, é de prever que venha a ser um Verão quente ou pelos menos um Verão com alguns dias muito quentes. Desgraçadamente, para muitas árvores será um Verão de brasas.

Os incêndios de outubro de 2017 tiveram consequências no dia, nos dias que se seguiram e outras que se projetam sobre o nosso futuro.

Morreram pessoas, mas conheço quem nesses dias tenha sofrido um acidente vascular cerebral e ainda esteja num processo de recuperação incerto. Li notícias que o Ministério da Saúde e iria fazer estudos nos concelhos afetados para avaliar se a saúde da população em geral foi especialmente afetada.

Também nas florestas há consequências que vão muito para além do efeito direto do fogo.

Começam a ser visíveis milhões de pequenos eucaliptos que nascem das sementes caídas no solo e que antes ou não caíam ou não conseguiam nascer devido à vegetação existente.

Vemos, em terrenos onde existiam eucaliptos adultos capazes de produzir sementes, nascer quantidades incríveis de pequenos eucaliptos. Em alguns locais parecem erva semeada, ou como diriam os mais velhos, parecem “leirões de linho”.

Este problema parece-me ter uma escala nova pois não tenho a ideia de em anteriores fogos isto acontecer com esta intensidade. Terá relação com a altura do ano em que se deu o incêndio?

Nos discursos das muitas entidades envolvidas ainda não vi expressa uma preocupação com esta questão, que tem potencial para se tornar um problema ecológico muito grave na nossa região.

Do que já se pode ver é de crer que muitos hectares de terrenos com grande potencial para a floresta se vão tornar locais onde nem os javalis conseguirão passar.

Ao caminhar, nomeadamente, entre Pinheiro de Lafões e Oliveira de Frades são visíveis ao lado da futura ecopista extensos campos de pequenos eucaliptos que se não forem arrancados este ano vão formar verdadeiros canaviais.

Vamos ter a ecopista ladeada por sebes de eucaliptos tão densas que vão ser completamente intransponíveis. Em muitos troços vai ser como se andássemos dentro de um túnel.

Deixo aqui uma sugestão para que as câmaras municipais da nossa região e dos outros municípios ardidos mobilizem campanhas de voluntários para arrancar estes infestantes este Verão.

Há dias arranquei alguns e foi fácil, mas quando tiverem um metro de altura vai ser impossível arrancá-los, sendo que a somar a isso há o problema de cortá-las com um máquina não ser solução, pois eles tenderão a rebentar de novo.

Eu diria que este poderá ser um dos impactos mais gravosas para o futuro da ecologia da nossa região em consequência do incêndio de outubro de 2017.

O eucalipto não é o único infestante tóxico que resulta dos incêndios.

Foi publicada, já no início do ano, uma portaria que faz a majoração das bolsas de formação para os formandos residentes nos municípios afetados pelos incêndios de 2017.

Nesta lista constam Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul e muitos outros municípios que foram afetados por incêndios que destruíram habitações, empresas e diversas infraestruturas. Nada contra, pois parece-me fazer sentido que, para evitar a emigração de quem tenha ficado desempregado, haja  programas especiais de apoio para frequentarem formação.

Contudo, não consigo ver  razão para dessa lista constarem os concelhos de Aveiro e Viseu. Não percorri esses concelhos todos, mas colocar ao mesmo nível o que aconteceu em Aveiro e Viseu com o que aconteceu em Vouzela, Tondela ou Seia é no mínimo uma afronta a quem sofreu.

Não deixa de ser curioso que tendo estes municípios presidentes de Câmara do PSD, um partido sempre crítico dos subsídios do estado, eles não tenham recusado estes apoios, que de todo não se justificam pelo menos como consequência dos fogos.

Não sei o que vão querer se, por desgraça, vierem a ter fogos como nós tivemos…

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