Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Mudar a propriedade dos terrenos para prevenir os fogos

Andamos todos preocupados em preparar o combate aos incêndios que vão ocorrer em 2018, mas é indispensável pensar como vamos lidar com os incêndios que irão ocorrer daqui a 10 anos e poderão ser mais destrutivos do foi o de outubro passado.

Pela tendência da demografia, parece razoável pensar que daqui a 10 anos metade das aldeias da região de Lafões terão como moradores meia dúzia de idosos e as que têm agora meia dúzia já não tenham nenhum.

O desequilíbrio entre o número de mortes e o número de nascimentos é enorme e as coisas pioram porque as crianças que nascem não nascem nos locais onde as pessoas morrem mais.

Os incêndios de outubro destruíram o valor dos terrenos florestais e isso vai acontecendo com a generalidade dos terrenos ardidos.

Há algumas semanas fiz a viagem de Arouca até Santa Cruz da Trapa e na verdade temos o sentimento de viajar por um deserto. Tudo foi queimado nos últimos 10 nos e de facto se aquele era um território com pouca gente, hoje é difícil encontrar alguém.

Quando olhamos para as encostas das serra da Arada ou do S. Macário o que vemos são enormes extensões de terrenos incultos, sem agricultura, mas também sem floresta e claro sem gente. O cenário repete-se se viajamos até Lamego, Castro Daire ou Vila Nova de Paiva.

O incêndio de outubro permite vistas mais desafrontadas sobre os terrenos, permitindo ver que a floresta já tinha ocupado, em muitas aldeias, mais de metade dos terrenos que foram agrícolas até há 50 anos e que dos terrenos agrícolas, ainda não tomados pela floresta,  apenas uma pequena parte deles está a ser lavrado para novas culturas.

A época ainda não acabou, mas não acredito que 10% desses terrenos seja lavrado este ano e serão poucos mais aqueles em que será cortado o feno que cresceu nos últimos meses.

Nos últimos 50 anos a agricultura tradicional perdeu todo o valor económico, mas ficou a ilusão que os eucaliptos iriam substituir o milho e o vinho como fonte de rendimento, mas o investimento na floresta tornou-se uma verdadeira lotaria. Gastamos sempre e raramente ganhamos alguma coisa.

A minha proposta para este debate é que se faça uma reorganização geral da propriedade e que para isso se utilizem os fundos comunitários do próximo quadro.

A ideia é o estado comprar todos os terrenos e reorganizá-los, incluindo os baldios, em propriedades com o mínimo de 50 ou 100 hectares, mas que possam ir até aos 500, dependendo do terreno ser mais ou menos fértil, e depois arrendar ou vender essas propriedades em leilões públicos, mas apenas a pessoas que queiram viver nelas ou na aldeia mais próxima.

Embora possa ser deixada uma área de proteção em torno das aldeias, para usufruto doutros moradores, passaríamos a ter apenas meia dúzia de proprietários em cada aldeia. Parece pouco mas se eles lá morassem e tivessem filhos pequenos a vida regressava.

O objetivo é dar interesse económico à terra. E só tendo interesse económico as pessoas podem cuidar da floresta e da agricultura. Sem isso, haja ou não coimas, não haverá limpeza.

Seria uma forma de trazer pessoas dos meios urbanos para cá e até aumentaria o interesse em reabilitar aos centros antigos das aldeias para segunda habitação e turismo.

Há todos os argumentos contra isto, mas é certo que daqui a a 10 anos, que seria o tempo que isto levaria a implantar, os últimos residentes nas aldeias que ainda fazem algum agricultura já faleceram ou estarão em casa com apoio domiciliário, num centro de dia ou num lar.

As pessoas dizem ter uma grande ligação aos terrenos, porque foram dos avós, mas a verdade é que a maioria das pessoas com menos de 40 anos residentes nas nossas aldeias e vilas tem uma ligação teórica, pois na prática nunca fizeram nada que os ligue as esses terrenos.

Acredito que tanto quem mora por aqui como quem mora fora teria mais interesse em viver uma paisagem cuidada, do que poder dizer aos amigos que têm um silvado qualquer que nem sabem onde fica ou uma casa velha em ruínas, mas tem muito valor porque foi do seu avô.

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