Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Sempre os incêndios

Uns dias de calor avivaram-me algumas ideias em torno dos incêndios de outubro e do que tem sido feito para prevenir que aconteçam outros semelhantes.

No dia em que escrevo ouvi no rádio que uma pessoa que andava a fazer uma queimada foi presa e levada ao juiz, porque deixou fugir o fogo e queimou a área dum campo de futebol.

Falando de futebol, dizia-se no mesmo noticiário que adeptos do Porto atiraram uma tocha contra o hotel em que estava a equipa, provocando um incêndio. Parece que ninguém foi preso nem levado ao juiz.

Estranho país este em que um trabalhador é preso por ter tido o azar de deixar arder um hectare de floresta e um desvairado que provoca um incêndio num hotel pode continuar a festejar e a beber umas cervejas descansado.

Pelas notícias dir-se-ia que está a acontecer muita coisa para melhorar a prevenção e o combate aos incêndios. Se isso dependesse de leis e regulamentos estaríamos salvos.

O problema é que isso depende da cultura das pessoas e quando vemos os chefões da proteção civil e das associações de bombeiros abespinhados, porque foi pedida ajuda a uma equipa de peritos estrangeiros para avaliar o que está a ser feito, fica claro que no essencial nada mudou. Há quem pareça mais interessado em proteger a sua área de influência do que a floresta.

Há alguns dias ouvi falar que existe um plano de utilização do fogo controlado para criação de zonas de contenção, mas na mesma ocasião disseram que ainda estavam a discutir quem seriam os controladores do fogo. Deve ser muito importante saber quem controla o quê, mas o problema é que chegou o calor e ainda não há sinais de fogo controlado.

Seria muito bom que no Verão apenas ardesse a floresta dos pequenos interesses e dos organogramas que enchem os gabinetes e fosse poupada a floresta que interessa.

Voltando ao desgraçado que deixou descontrolar a queimada e atendendo ao enorme alarido que houve a favor do agravamento das penas para os incendiários, fico com um sentimento desconfortável por não ouvir ninguém na comunicação social ou da política pedir a responsabilização criminal da EDP e dos seus dirigentes depois de, no seu relatório, a Comissão Independente que investigou os incêndios de 15 de outubro ter afirmado que o incêndio começou na Lousã devido à queda duma árvore sobre os fios duma linha de alta tenção.

Entretanto a EDP já afirmou que não tem dinheiro para manter as zonas de proteção das linhas limpas, apesar de ser uma obrigação contratual.

Quem diz isto são gestores que têm os seus salários indexados aos lucros da empresa e distribuem centenas de milhões de euros em dividendos aos acionistas todos os anos.

É triste dizê-lo, mas é que a ganância dos gestores e dos acionistas que leva a EDP a por em causa a segurança das pessoas para aumentarem os seus lucros.

Conhecendo eu um pobre que está a cumprir uma pena de prisão de sete anos por, estupidamente, ter causado um incêndio em que viria a morrer uma pessoa, será que o Dr. Mexia, o Dr. Cartoga e os seus colegas, tudo gente da fina, dormem descansados sabendo que a falta de manutenção das linhas de alta tensão pode ter provocado mais de uma centena de mortes e continua a ser um perigo?

Fica bem ver os trabalhos de limpeza nos taludes da A25, pena que durante mais de vinte anos o objetivo de ter lucros gordos não tenha permitido à concessionária fazer estes trabalhos.

Nas áreas que não arderam a limpeza das faixas ao longo das estradas e em torno das habitações, apesar de ter sido feito muito mais do que nos nos anteriores, está muito longe dos mínimos necessários.

Neste particular tenho ouvido as mais variadas opiniões. Até já me disseram que teria que cortar a cerejeira, o limoeiro e a tangerineira que tenho próximo da minha casa.

Também já ouvi dizer que nas faixas de segurança não poderá árvores de nenhum tipo.       Não sei se a lei diz isso, mas se diz é preciso que a mudem depressa. Independentemente da lei parece óbvio que é necessária uma campanha de informação mais assertiva.

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