Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Guerras Comerciais

A guerra comercial que o Presidente Trump desencadeou contra todo o mundo, embora não haja bombas a rebentar, não deixa de ser uma guerra capaz de provocar muitos danos e destruição.

Os Estados Unidos têm travado muitas guerras, algumas pouco conhecidas na Europa, das quais a primeira foi contra as tribos indígenas para lhes roubarem as terras.

Todas as guerras travadas pelos Estados Unidos ao longo da sua história tiveram como objetivo, no dizer do historiador americano Andrew J. Bacevich que, em 2008, escreveu um livro, com o título “The Limits of Power”, assegurar recursos abundantes e baratos para a expansão do consumo da população. Foi assim com as guerras contra os índios e continua a ser, hoje em dia, com as guerras do Afeganistão e do Iraque, cujo objetivo é assegurar o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente.

O objetivo da guerra comercial também é impor, pela força, um custo adicional aos produtos dos outros países para garantir vantagens para alguns produtos americanos, mas importa não esquecer que todas as guerras tiveram desenvolvimentos que escaparam ao controlo de quem as começou.

Esta guerra comercial, para desgosto de Trump e dos seus apoiantes, tem potencial para criar maiores problemas internos nos Estados Unidos do que as guerras no Iraque ou no Afeganistão, pois, sendo o exército americano voluntário e profissional, os filhos das classes médias e altas se servem no exército é como oficiais, deixando as tarefas de combate para os filhos dos pobres e das minorias, que andam de armas às costas nas montanhas ou no deserto, sendo por isso as famílias dos americanos brancos pouco afetadas pela guerra.

A causa da guerra comercial é o gigantesco défice comercial americano existente desde há muitos anos e que decorre do facto dos americanos consumirem mais do que produzem. (Ainda bem, que isso acontece, pois senão as nossas empresas não teriam mercados para onde exportar).

Apesar de todo o seu poder, os Estados Unidos não podem imporem taxas alfandegárias sem sofrerem retaliações que lhes doam e foi isso que fez Trump recuar na intenção de impor taxas a alguns produtos europeus e não a “amizade”.

Se no caso da China ele não der o braço a torcer, vai com certeza ocorrer uma escalada que, tendo efeitos muito negativos para toda a gente, acabará por afetar sobretudo os países e as pessoas mais pobres.

Ao criar taxas alfandegárias para alguns produtos estrangeiros os Estados Unidos podem beneficiar algumas atividades económicas, mas no final todos vão pagar mais pelos mesmos produtos.

Em teoria a China, porque exporta mais para os Estados Unidos do que compra aos americanos, será mais prejudicada, mas convém não esquecer que muitas empresas americanas dependem das compras da China.

A primeira lista de produtos americanos aos quais os chineses dizem poder impor taxas alfandegárias mostra como eles poderão afetar profundamente algumas empresas americanas.

Uma taxa sobre a soja criará sérios problemas a muitos agricultores, do mesmo modo a Boeing pode ser fortemente afetada por uma taxa sobre os aviões, uma vez que a China é, atualmente, o maior comprador de aviões comerciais.

Acresce que pode ser mais fácil às empresas chinesas produzir alguns produtos em países que não estão abrangidos pelo embargo do que aos americanos construirem fábricas para os produzirem nos Estados Unidos, porque sendo baixo o desemprego e grandes as restrições à entrada de estrangeiros não haverá mão-de-obra disponível para essas fábricas.

Trump tem a vantagem de ser transparente e não procurar falsas justificações para as suas guerras, assumindo com clareza que só está preocupado com os seus interesses e com as vantagens que possa tirar das situações.

Felizmente, chegamos a um ponto em que nenhum país consegue assegurar um nível de vida adequado às suas populações sem trocas comerciais com os outros países,

Longe de ser uma fragilidade, esta situação é uma garantia, pois obriga a que as soluções só possam ser encontradas com mais cooperação e não com mais guerras.

Mário Pereira    Abril de 2018

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