Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Lembram-se dela?

Os dias de Natal, além dos convívios e festividades tradicionais, com as suas noites longas e as tardes chuvosas, proporcionam algum tempo para leituras. Uma das minhas leituras foi uma biografia com o título Uma História para o Futuro, editada em 2007 pela editora Tribuna.

Nascida em 18 de janeiro de 1930, Maria de Lurdes Pintassilgo faleceu no dia 10 de julho de 2004. Dito assim, aos mais jovens não dirá nada e ao menos jovens já pouco dirá.

Os nascidos nos últimos 30 anos não viveram esse tempo e os que têm agora 40 tinham na altura outras preocupações mais próprias da sua idade.

Foi toda a sua vida uma católica militante, tendo chegado a ser presidente da Juventude Universitária Católica Feminina, vivendo maior parte da sua vida integrada no movimento GRAAL,  uma comunidade de natureza religiosa com um forte compromisso social.

Esta mulher, desaparecida há 13 anos, foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de primeiro ministro em Portugal.

Este facto por si só seria motivo para ser lembrada, mas ela merece ser recordada também pelas suas ideias, pelas suas propostas, pelo legado do seu governo e por ter vivido sempre à frente do seu tempo a abrir caminhos para as gerações seguintes.

Foi uma das primeiras mulheres a estudar no Instituto Superior Técnico e em 1954 foi a primeira engenheira entrar na CUF, que então não era nome de hospital mas da maior empresa química do país com enormes fábricas no Barreiro.

A seguir ao 25 de Abril de 1974, foi a primeira mulher a ser ministra, com a pasta dos Assuntos Sociais e a ela se deve o primeiro esboço do que é hoje o nosso sistema de segurança e proteção social.

A 1 de agosto de 1979 tomou posse como primeiro ministro. Vivia-se então uma crise séria e o Parlamento  não tinha uma maioria que conseguisse formar um governo, o que levou o então Presidente Ramalho Eanes decidiu nomear esta independente para chefiar um governo de iniciativa presidencial, com o objetivo de governar até às próximas eleições, que se realizariam em dezembro desse ano.

Entre outras práticas inovadoras, nesses cinco meses, ela visitou oito concelhos onde, com alguns ministros, se reunia com as câmaras e a população para discutir as prioridades para o seu concelho. Na biografia são referidas duas destas reuniões: uma em Lamego e outra em Castro Daire, o que mostra uma atenção ao interior que não voltamos a ver nos governos que se seguiram.

O seu governo publicou muitas leis, a maioria das quais foram revogadas, de imediato, pelo governo do PSD e do CDS que se seguiu. Apesar disso algumas das suas leis ainda hoje continuam em vigor.

A título de exemplo diga-se que foi o seu governo que alargou a segurança social a todas as pessoas, nomeadamente os rurais que não tinham feito descontos, e que publicou a legislação que assegura a igualdade no trabalho entre homens e mulheres.

A sua ação no governo foi bastante incómoda para os partidos, na generalidade os mesmos de hoje, e isso haveria de lhe custar algumas perseguições e desconsiderações.

Quando foi nomeada primeiro ministro era embaixadora na UNESCO, onde gozava de enorme prestígio. Nunca mais foi autorizada a regressar ao seu posto e acabou demitida.

Como não era mulher para fugir aos desafios candidatou-se à presidência da república nas eleições realizadas em 1986, ganhas na segunda volta pelo Dr. Mário Soares.

Depois desta experiência que lhe custou mais algumas inimizades, foi quase ignorada em Portugal mas teve uma carreira internacional com enorme prestígio e reconhecimento.

Maria de Lurdes Pintassilgo é uma das figuras maiores da nossa democracia e deve ser recordada pelo seu espírito militante e pelo seu empenhamento em contribuir para que Portugal fosse um sítio melhor.

A autora desta biografia é a Drª Luísa Beltrão, que tem diversos livros publicados, mas que entre nós é mais conhecida pela sua militância pela integração social das pessoas com deficiência, causa que já, por diversas vezes, a trouxe a Lafões.

O meu bem haja à biografada pela sua obra e à biógrafa por a manter viva a sua memória.

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