Crónicas do Olheirão (Mário Pereira)

Confusões e corrupções

Hoje em dia é prática normal os governos de todos os países desenvolverem ações de diplomacia económica para promoverem os negócios das suas empresas.

Daí que no atual governo  essa seja a principal missão do ministro Paulo Portas. Essa foi aliás uma das preocupações do anterior primeiro ministro, bem como tem sido uma preocupação do presidente da república nas suas visitas ao estrangeiro.

Assim, nesta lógica todos achamos natural que o nosso presidente, o primeiro ministro, os ministros e os embaixadores deem uma palavrinha aos seus congéneres quando estão em causa negócios de empresas portuguesas.

É evidente que estes esquemas têm tudo para correr mal e resvalarem para a corrupção.

Embora pensemos que a corrupção é um exclusivo dos países pobres, são conhecidas as luvas pagas pelos alemães para que lhe comprássemos os submarinos e o mesmo aconteceu nas vendas a outros países, como são públicos os casos de pagamentos feitos por empresas francesas a governantes de países a quem queriam vender armas.

Estes esquemas não são de agora e só  a falta de memória é que permite dizer que antigamente é que era tudo sério. A verdadeira diferença é que agora é mais fácil sabermos essas histórias.

A corrupção praticada pelas empresas dos países que acusam os pobres de serem corruptos, está de tal modo instalada e oficializada que elas podem contabilizar nas contas custos confidenciais, que só fazem sentido como forma de registar pagamentos não documentados.

É verdade que os governos sempre estiveram ao serviço dos negócios e há na história muitos casos de leis feitas para proteger interesses económicos específicos. Parece estranho mas o poder dos estados estabelecerem monopólios  acabou ainda não há tanto tempo como a nossa falta de memória nos leva a crer.

Um famoso tratado imposto pela Inglaterra a Portugal estabelecia que eles compravam vinho do Porto mas nós tínhamos de lhe comprar tecidos e artigos manufaturados.

Assim, é com naturalidade que temos ações cujo objetivo é genérico e procuram estimular a venda de produtos portugueses no estrangeiro sem que tenham um interesse concreto. Mas é certo que estas ações  resultam em oportunidades para empresas concretas.

Nestas circunstâncias é natural que surjam muitas formas de atuação fora dos limites da moralidade. É natural que havendo empresas beneficiadas nos seus negócios por essas ações e que sendo conscienciosas entendam que devem pagar o favor que lhe fizeram.

O sistema está de tal modo instalado que não há visita de estado em que na comitiva do senhor presidente ou do senhor ministro não viagem pelo menos cinquenta empresários. É costume ouvirmos os presidentes apresentarem como um dos resultados das suas visitas de estado os negócios que se concretizaram ou as oportunidades que se abriram para as  empresas  portuguesas.

É difícil acreditar que esta simbiose não crie uma teia de favores, que podem ser retribuídos espontaneamente ou por solicitações mais ou menos tortuosas.

As primeiras notícias de que Sócrates intercedeu nos negócios feitos pela Lena e outras empresas na Venezuela foram acolhidas com um coro de aplausos, como sendo um grande contributo para o aumento das exportações e a internacionalização da nossa economia. Não tenho memória de na altura alguém ter levantado a possibilidade de isso poder degenerar em corrupção.

Agora que se fala de corrupção no Brasil há que dizer que é, absolutamente, natural que quando Lula veio a Portugal tenha dado uma palavrinha sobre algum negócio das empresas  brasileiras em Portugal e que elas tenham retribuído o jeito.

A entrada da justiça neste campo com acusações de corrupção pode ter um papel clarificador dos comportamentos, mas este é um campo difícil, pois neste interface cruzam-se os interesses do estado, dos políticos e dos grupos económicos de uma forma, que podendo não ser sempre criminosa, é extremamente sujeita a situações pouco transparentes.

A posição dos portugueses em geral sobre este tipo de situações é em geral pouco crítica. Somos muito crítico da corrupção dos outros, nomeadamente sobre os políticos, mas somos muito prontos a participar nestes jogos de pequenos e grandes favores.

Recomendo aos leitores um pequeno exercício. Quando alguém começar com um inflamado discurso anti corrupção deem-lhe um pouco de corda e vão ver que daí a menos de cinco minutos essa pessoa está a contar-vos um caso em que tentou corromper alguém na câmara, na polícia, num serviço público ou como manobrou para conseguir um qualquer esquema.

Portugal só será menos corrupto quando formos mais críticos dos outros mas também de nós próprios e não usarmos nestas situações de uma dupla moral.Redação Gazeta da Beira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.