Crónicas do Olheirão – Ideias por Mário Pereira

Despedimentos em Oliveira de Frades

Foram notícia, recentemente, o encerramento das Águas do Caramulo, em Varzielas, e o despedimento de 38 trabalhadoras pela Jacob Rohner.

Estes são dois casos que merecem alguma reflexão, pois não parece que a causa destas decisões seja a “crise”, que justificou tudo durante anos, ou alguma mudança tecnológica que tenha tornado obsoletas essas fábricas.

A água engarrafada continua a ser um grande negócio e as meias ainda são um peça de vestuário de uso quotidiano.

A liberdade empresarial é positiva, mas como todas as liberdades e direitos têm como limite a liberdade dos outros. É por isso que todas as liberdades e direitos têm de ser regulamentados de forma equilibrada.

Estes dois exemplos mostram claramente o desequilíbrio existente na regulamentação dos direitos das empresas e dos seus trabalhadores.

Diziam os jornais que na Jacob Rohner as trabalhadoras foram impedidas de trabalhar sem que alguém tenha tido uma conversa com elas.

Chegados a este ponto já não estamos a falar do direito ao trabalho, mas do respeito que é devido a qualquer pessoa.

Parece-me evidente que gestores, que não são capazes de comunicar este tipo de decisões pessoalmente, não podem ser grandes gestores.

Normalmente, acontece estas decisões serem tomadas por uns senhores e, talvez também, por umas senhoras bem vestidos e que à saída da reunião, em que tomaram essa decisão, tinham à sua espera bons carros, a quem só interessa se a unidade é mais ou menos rentável.

Acredito que a maioria das pessoas presentes nessas reuniões nunca tenha vindo a Varzielas ou a Oliveira de Frades.

As Águas do Caramulo fecham porque não dão lucro suficiente, ao que li nos jornais, o marketing não terá sido o mais adequado e daí a dificuldade em rentabilizar a marca.

Se isso é verdade quem deveria ser despedido?

O pessoal de Varzielas ou os engravatados da sede?

O que me deixa indignado é ter a certeza que os Srs e Sras que decidiram  estes despedimentos vão receber um prémio, por esta decisão, seguramente maior que as indemnizações que vão pagar aos trabalhadores.

Estas situações, se não puderem ser revertidas, devem servir pelo menos para pensarmos se queremos viver numa sociedade em que as pessoas que trabalham não têm importância e são apenas um instrumento de produção, como uma qualquer máquina, ao serviço dos donos das empresas.

É o acumular de situações deste tipo que faz com que as desigualdades aumentem, fazendo com que uma pequena parte da sociedade tenha hoje em dia o poder de dispor, quase a seu belo prazer, do trabalho das outras pessoas, e em última análise das suas vidas.

É possível que algumas pessoas que perderam os seus empregos, encontrem outro, mas para algumas famílias esta situação poderá provocar imenso sofrimento e alterações dramáticas na suas vidas.

O facto é que com o pretexto que de manter a rentabilidade, estas empresas que foram apoiadas para investir no concelho, perante uma pequena dificuldade vão embora.

Quando as câmaras municipais ou o estado dão incentivos às empresas e apoiam os seus investimentos devem estabelecer clausulas que sejam penalizadoras do desinvestimento, sobretudo quando se trata de empresas sem ligações pessoais nem compromissos emocionais com os territórios e que tomam as decisões em Lisboa, no Porto, na Suíça ou nas Ilhas Caimão.

Uma das obrigações que deveria ser imposta a estas empresas é que procedam a demolição desses edifícios, que dizem já serem obsoletos, e devolvam os terrenos limpos.

Mário Pereira           Fevereiro 2018

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